sexta-feira, 18 de junho de 2010

Paixão por bicicletas (e som automotivo) em Arapongas

Hiogo e a bicicleta da pesquisa.
Ao fundo, as outras bicicletas
da família. Foto: Fábio Tito
Um dos alunos que participou da pesquisa sobre bicicleta escolar em Arapongas foi Hiogo Murilo da Luz, de 15 anos - um verdadeiro apaixonado por bicicletas. "As duas coisas que eu gosto mais são bicicleta e som automotivo", conta. Desde o ano passado, Hiogo trabalha como aprendiz durante a tarde na oficina de marcenaria do pai, que fica ao lado de casa. E ele gosta de investir parte do salário em suas duas paixões.
Mas enquanto os gastos com som automotivo vão para o carro do pai, as modificações na bicicleta parecem ser mais bem aproveitadas pelo garoto. "Já troquei aros, guidão, pés de vela, pedais, banco, pneus, corrente, manetes e outras coisinhas. Em um ano foram mais de R$ 1 mil nessas alterações", afirma. E Hiogo faz jus aos investimentos. "Pedalo pela cidade inteira - dependendo do dia, ando mais de 10 km. E tenho amigos que gostam também, sempre vamos ao Parque dos Pássaros para fazer manobras", diz, animado.
Quando um pneu fura, é o próprio garoto quem
faz o conserto na oficina do pai. Foto: Fábio Tito
A facilidade de ter a oficina do pai ali ao lado também é usada em favor da paixão do adolescente. "Quando o pneu fura, eu mesmo conserto aqui na oficina. Só quando é alguma coisa mais séria que eu levo pro bicicleteiro", explica. Até na bicicleta da pesquisa Hiogo fez uns ajustes. "O paralamas estava saindo fácil e pegando no pneu da frente, mas apertei uns parafusos e ficou melhor", diz. Ele elogiou a bicicleta testada, mas não substituiria a sua tão cedo. "Fiz as modificações na minha e a deixei do jeito que eu queria, personalizada. Mas a bicicleta da pesquisa é boa, com certeza muitos alunos gostariam de ter uma", considera.
Por Fábio Tito, de Arapongas
Edição: Elza Pires de Campos

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Equipe da região Sul chega a Arapongas (PR) para realizar pesquisa da bicicleta escolar

No sábado, dia 5 de junho, a equipe da região Sul na frente de pesquisa da bicicleta escolar chegou a Arapongas, interior do Paraná. A ideia inicial era realizar o estudo no município de Astorga, a 14 km da cidade. Entretanto, o uso da bicicleta não é muito comum em Astorga, enquanto as bikes fazem parte da paisagem em Arapongas - o que levou a coordenação da pesquisa a substituir um município pelo outro no trabalho.
Rente ao estacionamento específico para motos, um homem utiliza a ciclofaixa. À direita, uma das esquinas preenchidas por bicicletas no centro de Arapongas. Fotos: Fábio Tito
Bicicletas e motos preenchem as ruas, por vezes fazendo dos carros minoria. Algumas vias principais possuem ciclofaixa, e nas esquinas do centro há pontos de estacionamento de bicicletas. Apesar de Arapongas parecer uma ótima cidade para receber a pesquisa, não foi bem isso que disse Irahi Germanovisk, secretária municipal interina de Educação. A equipe conversou com a secretária na manhã de segunda-feira (7). "Aqui o transporte escolar é todo feito por ônibus, vans e kombis. Os pais preferem desta forma, porque é mais seguro - tanto na zona urbana quanto na rural", antecipou.
No mesmo dia, os pesquisadores conheceram Leandro Camparoti, coordenador de transporte escolar em Arapongas e professor da rede pública. "Mesmo na zona urbana, é comum que o ônibus ou a van apanhe alunos que moram próximos à escola, no mesmo bairro. É uma comodidade. Mas há escolas que têm, sim, estudantes que preferem pedalar", conta.
O bicicletário da escola não fica lotado, mas mostra que
há quem prefira pedalar para ir às aulas. Foto: Fábio Tito
Foi através da indicação do professor que a equipe chegou à escola estadual Júlia Wanderley, no centro de Arapongas. As bicicletas no pátio mostravam que havia trabalho pela frente. Após fazer entrevistas com a diretora e uma professora da escola, a equipe entrevistou dez alunos que não utilizam a bicicleta para ir às aulas.
Quanto aos que costumam pedalar até o colégio, é a diretora ou a professora entrevistada quem geralmente indica esses alunos para participarem do estudo e testarem uma bicicleta da pesquisa. No mesmo dia a equipe vai até a casa de cada aluno para convidá-lo a participar do estudo, entrevista o pai ou a mãe e entrega a bicicleta para ser usada no dia seguinte.
Por Fábio Tito, de Arapongas
Edição: Elza Pires de Campos

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Após último dia de pesquisa, Porto Velho (RO) recebe as lanchas escolares usadas na expedição

O ônibus que faz a segunda parte
do trajeto na rota acompanhada
pela pesquisa. Foto: Diego Baravelli
Na quarta-feira (2), último dia em campo da frente de pesquisa do barco escolar, a equipe acompanhou uma rota escolar que leva alunos até a escola municipal Chiquilito Erse. O colégio fica na comunidade de Aliança, localizada à margem do rio Madeira e a 50 km da cidade de Porto Velho. Na rota, o ponto final do percurso feito no rio Madeira não é a escola. Os alunos fazem de lancha apenas a primeira parte do trajeto, e depois seguem de ônibus por estradas de terra até o colégio.
O blog TER Pesquisa visitou a escola municipal Deigmar Moraes de Souza, na comunidade de Cujubim Grande, e viu como programas federais têm ajudado a melhorar não só a vida escolar, mas também comunitária no local. Luiz Pereira Braga, de 51 anos, é o diretor do colégio e falou sobre as oficinas extracurriculares oferecidas no programa Mais Educação. "Estamos com a oficina de horta e vamos começar outras, como música e dança. As melhorias já são visíveis no desempenho, comportamento e assiduidade dos alunos", afirma. São 120 estudantes inscritos no programa. As atividades são sempre no horário oposto às aulas, e alguns recebem o almoço na escola para não precisarem voltar para casa no meio tempo.
Alunos participam da oficina de horta, parte do
programa Mais Educação. Foto: Fábio Tito
Marcos Fleming (dir.) entrega as chaves das lanchas escolares
a Edimar Oliveira no porto da cidade. Foto: Fábio Tito
Na tarde do mesmo dia, a equipe foi até o porto da cidade para a entrega das lanchas testadas ao longo dos quase três meses de pesquisa em campo. Marcos Fleming, coordenador do estudo, entregou as chaves das duas embarcações a Edimar Oliveira, chefe de aparelhamento de projetos especiais da Secretaria Municipal de Educação. Por possuir sistema terceirizado de transporte escolar, a secretaria ainda estuda a maneira como as lanchas escolares serão utilizadas para implementar melhorias nesse sistema.
Por Fábio Tito, de Porto Velho
Edição: Elza Pires de Campos

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Equipe chega a Porto Velho (RO), último município visitado pela frente de pesquisa do barco escolar

Após a realização da pesquisa em Tefé, no Amazonas, a equipe de pesquisa do barco escolar navegou de volta a Manaus a bordo do barco Natureza. Lá, a embarcação de apoio da expedição foi desmontada e a equipe seguiu de avião até Porto Velho, último município a ter rotas escolares de barco acompanhadas pelo estudo. As lanchas escolares usadas na pesquisa foram enviadas de balsa até a capital de Rondônia, trajeto que demorou seis dias para ser feito.
A secretária de Educação de Porto Velho, Maria
de Fátima Pereira de Oliveira. Foto: Fábio Tito
Na segunda-feira, dia 31 de maio, a equipe entrevistou a secretária municipal de Educação, Maria de Fátima Ferreira de Oliveira. Ela falou sobre a complexidade do transporte escolar em Porto Velho, que envolve embarcações, ônibus e bicicletas distribuídas pela secretaria. "O transporte escolar rodoviário e fluvial é todo realizado por empresas terceirizadas há mais de cinco anos, e isso permitiu que saíssemos de 2 mil estudantes transportados para os mais de 9 mil alunos atendidos atualmente", afirma. Ela acredita que a melhora na administração do transporte tem ligação direta com o aumento de alunos nas escolas.
Crianças descem por íngremes barrancos para embarcar no transporte escolar. O solo é muitas vezes argiloso e escorregadio. Foto: Diego Baravelli
Fátima também explicou que as maiores dificuldades atualmente dizem respeito ao transporte rodoviário, por conta das condições precárias de diversas estradas e das longas distâncias. Nas primeiras rotas de barco acompanhadas pela equipe na terça-feira, 1º de junho, o que chamou a atenção foram os grandes barrancos que várias crianças têm que encarar para embarcar no transporte para a escola. Neste dia, a pesquisa visitou as escolas Deigmar Moraes de Souza e Ermelindo Brasil, respectivamente nas comunidades de Cujubim Grande e São João Batista, à margem do rio Madeira.
Por Fábio Tito, de Porto Velho
Edição: Elza Pires de Campos

terça-feira, 1 de junho de 2010

Ubatuba, no litoral norte paulista, impressiona pelo número de bicicletas nas escolas

Não foi difícil constatar a predominância das bicicletas no transporte em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. A equipe da região Sudeste na frente de pesquisa da bicicleta escolar chegou à cidade na terça-feira, dia 25, e ficou impressionada com o enorme bicicletário da escola municipal Presidente Tancredo de Almeida Neves.
Mais de 300 bicicletas preenchem o bicicletário durante
a manhã na escola Tancredo Neves. Foto: Fábio Tito
 Segundo a diretora do colégio, Maria de Fátima Souza Barros, mais de 80% dos alunos pedala para ir às aulas. "É um excelente meio para chegar à escola. Além de ser ecologicamente correto, garante a atividade física e promove a saúde dos alunos", afirma. Ela cita um exemplo de como a bicicleta é de fato parte da cultura local. "Sempre que fazemos alguma festa com sorteio, colocamos uma bicicleta como prêmio. É o que faz mais sucesso entre as crianças", conta.
Durante a passagem por Ubatuba, o blog TER Pesquisa acompanhou a rotina de Antônio Carlos do Carmo Júnior, de 13 anos, em seu trajeto até a escola. Ele mora com os pais no bairro de Perequê-Açu, e pedala todo dia até o Centro, onde fica o colégio Tancredo Neves. Ana Cristina Araújo Silva, de 37 anos, é a mãe de Antônio e explica que há pouco mais de um ano a bicicleta passou a ser o principal meio de transporte do filho. "Só a partir de 2009 começamos a deixar o Júnior fazer esse trajeto todo dia. Antes ele ainda era muito novo, e o trânsito aqui é perigoso", afirma a mãe, zelosa.
Hoje o adolescente chega a percorrer a distância entre a casa e a escola até seis vezes no mesmo dia, quando há atividades à tarde e/ou à noite. "O pessoal que anda de bike realmente não costuma respeitar algumas regras. É comum ver gente andando na contramão ou fora das ciclovias, atrapalhando o trânsito", afirma Antônio.
Na saída do colégio, a esquina é preenchida por diversas bicicletas. Antônio aprovou a bicicleta testada durante a pesquisa. Foto: Fábio Tito
Antônio testou o protótipo da bicicleta escolar proposta pelo MEC na quarta-feira (26), e elogiou o desempenho da bicicleta. "Ela é bem leve e fácil de pedalar. Não tem marchas como a minha, mas aqui em Ubatuba o terreno é muito plano então não faz diferença", avalia.
Por Fábio Tito, de Ubatuba
Edição: Elza Pires de Campos

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pesquisa da bicicleta na região Sudeste visita Redenção da Serra, no interior de São Paulo

Após passar a primeira semana de pesquisa no município de São Fidélis, no Rio de Janeiro, a equipe da região Sudeste na frente da bicicleta escolar chegou a Redenção da Serra, em São Paulo, no domingo, dia 23 de maio. Como o próprio nome diz, o município de pouco mais de 4 mil habitantes fica em região serrana, mais especificamente no Vale do Paraíba Paulista.
O que levou a pesquisa a Redenção foi a constatação de que, em 2008, o governo estadual doou 251 bicicletas a estudantes da zona rural do município, justamente para facilitar o transporte à escola. Mas a primeira observação da equipe ao chegar à pequena cidade foi a inexistência de pessoas usando bicicletas - nem sequer nas estradas próximas.
O professor Edson Matos, diretor do
colégio estadual. Foto: Fábio Tito
Quem explicou o ocorrido foi Edson Carneiro Matos, diretor da única escola estadual em Redenção. "A distribuição de bicicletas em 2008 contemplou alunos que moravam a mais de 2 km de distância da escola. Construímos um bicicletário na escola logo em seguida, mas até hoje ele nunca foi usado", afirma o diretor. A região possui muitas inclinações, e as ruas de pedra em Redenção devem proporcionar descidas radicais e subidas mortificantes para qualquer ciclista que se aventure. "Além dessa dificuldade do terreno, também falta acostamento nas estradas e muitas vezes é preciso andar sobre cascalho, o que dificulta a pedalada", acrescenta Edson.
Alguns estudantes da zona rural chegaram a testar a bicicleta da pesquisa, após uma longa procura pelas estradas de terra que levam aos sítios do interior. Mas diante da dificuldade de aplicar a pesquisa no município, a equipe dicidiu já na terça-feira (25) se dirigir a Ubatuba, no litoral norte paulista - a menos de 100 km de Redenção da Serra. Lá a pesquisa seria feita pelo resto da semana.
Alunos da zona rural de Redenção da Serra testam as bicicletas da pesquisa.
A mãe, ao fundo, acompanhou o trajeto dos filhos. Foto: Fábio Tito

Respeito e paixão pela escola
A conversa com o diretor da Escola Estadual Cel. Queiroz, no entanto, foi bastante enriquecedora e valeu a visita ao município. Edson Carneiro Matos, de 44 anos, é diretor há oito anos, mas explica que sua história com o colégio vai muito além disso. "Passei 13 anos estudando aqui, depois me formei professor e dei aulas por 13 anos, também nesta escola. Então trabalhei por três anos em outros municípios e voltei para assumir como diretor", conta.
O pátio da escola em Redenção da Serra. Ao centro a
equipe de pesquisa durante a visita. Foto: Fábio Tito
Segundo ele, o respeito aos professores e à escola é muito maior no interior. "Aqui temos orgulho de pertencer ao colégio, a comunidade tem muito respeito. Na cidade grande a escola perdeu o papel de centro da comunidade. Nem a igreja exerce mais essa função", afirma. Segundo ele, o respeito se evidencia nas condições do colégio, de fato impecáveis. "Pintamos as paredes já há alguns anos, e simplesmente não existe pixação. E nos oito anos na direção, se trocamos três vidros quebrados, foi muito."
Edson mostra o primeiro livro
de ponto da escola, com data
de 1914. Foto: Fábio Tito
Um quartinho no canto do pátio guarda algo que Edson preserva como o guardião de um tesouro. São os livros de ponto do colégio, cujos primeiros registros datam do ano de 1914. "A escola foi fundada nesse ano, ainda em outro local, e se mudou pra cá em 1978 devido a uma enchente. Ainda tem muita coisa antiga que estou tentando organizar, isso faz parte da história de Redenção", afirma o diretor, eterno professor e aluno da escola.
Por Fábio Tito, de Redenção da Serra
Edição: Elza Pires de Campos

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A rotina de uma aluna no interior do Maranhão

Ainda na zona rural de Santa Rita, no Maranhão, os pesquisadores conheceram a estudante Elaine Rocha Cereja, de 11 anos. A menina não só usa a bicicleta para ir às aulas toda tarde, mas também faz o transporte dos dois irmãos mais novos, que estudam de manhã. O blog TER Pesquisa acompanhou um pouco da rotina de Elaine e de sua família.
A casa é humilde. O chão é de terra batida, as paredes são parte de pau-a-pique, parte feitas apenas com galhos presos horizontalmente - em alguns lugares não chegam sequer à altura do teto, que é de palha. Porta de entrada não tem. E pela casa, do lado de dentro mesmo, são pelo menos três bicicletas encostadas pelos cantos.
Laura usa um balde para dar banho nos filhos mais
novos, na abertura da sala de casa. Foto: Fábio Tito
Quem geralmente acorda Elaine já às 5h30 é a mãe, Laura Rocha Cereja, de 35 anos. A menina não tem um quarto, a rede é esticada na sala mesmo, ao lado das redes de seus dois irmão mais novos: Eliezer, de sete anos, e Mateus, de quatro. "Tenho que acordá-los bem cedo, que é pra dar tempo de se arrumarem e chegarem na escola. Eles têm que sair daqui no máximo às 6h", explica Laura. O café-da-manhã é uma xícara de café puro para cada um, e logo é hora de partir.
Além das três crianças, a mulher também é mãe de Elias, de 14 anos, Anália, de dois, e está no oitavo mês de gravidez aguardando outra menina. Elias costuma revezar com Elaine no transporte dos irmãos mais novos - um leva e o outro busca. "Na ida tem que ser a Elaine, porque o Elias tem mais preguiça de acordar e na volta faz mais sol, cansa mais. Mas tem vez em que a Elaine é quem leva e busca", afirma a mãe.
A primeira etapa do caminho até a escola é feita a pé. Fotos: Fábio Tito
O começo do caminho é feito a pé por uma trilha, Elaine empurra a bicicleta e os meninos seguem em seu encalço. A "estrada" que leva até a casa é um grande atoleiro, e qualquer chuva gera muita lama - por isso o melhor é ir pela trilha. "É muito ruim, dá trabalho acordar cedo e levar os garotos porque a escola fica muito longe, cansa bastante", afirma a menina.
Elaine e os irmãos no embalo de uma descida. O trajeto fica
mais fácil no trecho feito de bicicleta. Foto: Fábio Tito
E não é em qualquer bicicleta que os três irmãos conseguem andar. "Tem que ser da maior, que tem garupa grande. Hoje a que eles usam está emprestada, então vão ter que ir com a minha", afirma Raimundinho, marido de Laura. Ele é o pai de Mateus, Anália e do bebê que está a caminho. "Mas cuida de todos da mesma maneira", aponta a mulher.
Apesar das dificuldades, Elaine gosta de estudar. "Minha matéria preferida é história. Gosto de estar na escola, o problema é mesmo a distância. Às vezes dá muita preguiça", confessa. A mãe diz que há alunos na região que abandonaram os estudos. "Desistir é fácil. Eu brigo pra que meus filhos continuem, assim podem ter uma condição melhor no futuro. Aqui nós vivemos bem, mas é uma vida de muito trabalho", conta.
Por Fábio Tito, de Santa Rita
Edição: Elza Pires de Campos

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Frente da bicicleta escolar acompanha alunos em Santa Rita, interior do Maranhão

Antônia se prepara para voltar para casa na
bicicleta testada pela pesquisa. Foto: Fábio Tito
Durante a primeira das cinco semanas em campo, a equipe responsável pela região Nordeste na frente de pesquisa da bicicleta escolar está no município de Santa Rita, no interior do Maranhão. No início da semana eles entrevistaram alunos da escola Doutor Clodomir Pinheiro Costa, na zona rural do município, e viram de perto como a bicicleta ajuda a deixar um pouco mais fácil o caminho até a escola.
Antônia Miguelina Mendes, de 16 anos, foi uma das alunas que participou da pesquisa. Na terça-feira, dia 18, ela testou a bicicleta proposta pelo Ministério da Educação (MEC), e diz ter gostado da experiência. "A bicicleta é muito boa, bem melhor do que a que tem aqui em casa", afirma. E segundo Antônia, não é todo dia que ela pedala até a escola. "Às vezes alguém da família precisa da bicicleta, e eu tenho que pegar carona na garupa da minha prima", explica a jovem.
Muitas crianças caminham grandes distâncias até chegar à escola. À direita, Antônia e a prima dela testam as bicicletas do projeto. Fotos: Fábio Tito
A avó de Antônia é Ernestina Alves, de 64 anos. "É vó e mãe", brinca a neta, que foi criada pela senhora. Ernestina mora no vilarejo de Santa Rosa desde criança, e contou um pouco sobre a vida na região para o blog TER Pesquisa. "a gente vive de roça e pesca. Plantamos arroz, milho, mandioca, feijão... Tudo pro consumo próprio. E o melhor pescador da casa é o compadre", diz.
Compadre Valdeci prepara o cofo enquanto
conversa à porta de casa. Foto: Fábio Tito.
O "compadre" é Valdeci Munim Mendes, de 65 anos, que mora com a família de Ernestina. Enquanto conversa, ele tece um acessório para a pesca. "Isto aqui é um cofo, a gente usa pra guardar os peixes dentro d'água", explica o homem. "Aqui em casa todo mundo pesca", acrescenta Antônia. O cofo é feito com a folha da palmeira de babaçu, chamada de pindova na região. Valdeci rapidamente constroi o que parece um cesto fundo de palha, do tamanho que ele usa para guardar peixes maiores. "Faço também uns menores pros meninos, eles não aprendem a fazer por conta própria. Eu mesmo não tive ninguém que me ensinou, aprendi sozinho", afirma.
Por Fábio Tito, de Santa Rita
Edição: Elza Pires de Campos

Pesquisa acompanha rotas em Coari e segue para Tefé, último município visitado no Amazonas

Após sair de Codajás, o barco Natureza continuou a expedição subindo o rio Solimões e chegou ao minicípio de Coari ainda na noite de terça-feira, dia 12 de maio. No dia seguinte, em reunião com gestores na Secretaria Municipal de Educação, a equipe foi informada que a zona rural do município possui 152 escolas, cujo transporte escolar é feito por 212 canoas, 71 barcos e 358 condutores. Localmente, as canoas são chamadas de "catraias", e os condutores, inclusive os de barcos, são os "catraieiros".
Coari: algumas ruas terminam na beira do rio, de onde é possível ver os inúmeros flutuates boiando à margem da cidade. Fotos: Fábio Tito
"Estamos justamente no período de pagamento dos catraieiros e de fornecimento de combustível para o serviço. Por isso, muitas escolas na zona rural estão sem aula", explica Selionete Guimarães, secretária municipal de Educação. Como em outros locais visitados pela pesquisa, os condutores precisam ir uma vez por mês à sede do município para receber o salário - período no qual muitas escolas ficam fechadas.
Na quinta-feira (13) à tarde, os pesquisadores Marcelo Bousada e André di Monaco foram visitar algumas comunidades próximas a Coari em busca de barqueiros. Eles queriam saber se ali, devido à proximidade com a sede, já estaria havendo aula. Acabaram ficando por lá mesmo, na comunidade de Nossa Senhora de Fátima. "No meio da tarde começou uma rota escolar para o período noturno, e aproveitamos para acompanhá-la para a pesquisa", explica Marcelo. Durante a noite ocorreu também a festa pelo Dia de Nossa Senhora de Fátima, padroeira da comunidade.
No mesmo dia, a equipe ficou sabendo do acidente de avião que causou a morte da secretária de Educação do Amazonas, Cinthia Régia do Livramento, além de outros quatro membros da secretaria estadual. Foi decretado luto de três dias no Amazonas. Mesmo assim, ainda foi possível acompanhar outra rota escolar até a escola em Nossa Senhora de Fátima durante a manhã de sexta-feira (14).
Com isso foi possível verificar diferenças entre o transporte escolar pago pelo estado e peno município. Para o Ensino Médio (à noite), o transporte é fornecido pelo governo do estado, enquanto o município oferece o transporte para os níveis Básico e Fundamental (durante o dia). Após a segunda rota, a equipe de pesquisa decidiu então seguir já no sábado rumo a Tefé, que fica em torno de 18 horas distante, de barco, subindo o rio Solimões. Após o trabalho em Tefé, a ideia é retornar a Coari e completar o acompanhamento do município cumprindo novas rotas.
A escola Raimundo Moreira da Silva, na comunidade de Nossa Senhora de Fátima, visitada na manhã de sexta-feira (14). À direita, uma aluna é levada para casa na lancha escolar do MEC. Fotos: Diego Baravelli
O barco Natureza chegou a Tefé na manhã de domingo, dia 16. Durante a noite, a equipe se reuniu para a despedida do coordenador da pesquisa, Marcos Fleming. Ele deixou o barco na segunda-feira para acompanhar por duas semanas a frente de pesquisa da bicicleta escolar no interior do Maranhão e de São Paulo, e depois recompor a equipe do barco já em Porto Velho (RO).
Tefé é o último município no Amazonas a ser visitado pela frente de pesquisa do barco escolar, que parte depois em direção a Manaus - fazendo parada em Coari, como já apontado. De Manaus, a pesquisa segue para Porto Velho, em Rondônia, para acompanhar as últimas rotas aquaviárias do projeto. Além do encerramento da frente de pesquisa, ocorrerá também a doação das lanchas usadas no trabalho para o transporte escolar no município de Porto Velho.
Por Fábio Tito, de Tefé
Edição: Elza Pires de Campos

sábado, 15 de maio de 2010

"Caminhe" pelo barco Natureza, casa da equipe de pesquisa do transporte escolar aquaviário

Veja o vídeo abaixo e conheça a estrutura do barco Natureza. Ele tem servido de casa para a equipe da frente de pesquisa do barco escolar desde o início de março de 2010. O barco conta com três pisos, cozinha, banheiros, áreas de trabalho e lazer, entre outras estruturas. A filmagem foi feita no porto da Vila do Jacaré, interior do município de Manacapuru (Amazonas).
video

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Equipe realiza rotas em Codajás (AM) e antecipa ida ao município de Coari

Como planejado no dia anterior, a pesquisa acompanhou rotas escolares em comunidades do Lago do Miuá na terça-feira, dia 11. Uma equipe se dirigiu à escola Monteiro Lobato, em Taracuá, que é atendida por um dos seis barcos escolares contratados pela prefeitura para realização do transporte. Na rota acompanhada são levados 10 alunos e sobra espaço na embarcação, situação contrastante com a outra rota vista no mesmo dia.

Alunos embarcam para o transporte até a escola Monteiro Lobato em
um dos barcos contratados para o serviço. Foto: André di Monaco
A outra equipe de pesquisa analisou uma realidade que já havia sido apontada pelos gestores durante a reunião do final de semana. Na comunidade de São Francisco do Lago do Miuá, o barqueiro local afirma que realiza voluntariamente há sete anos o transporte escolar até a escola Eunice Pereira Quintino, e só recebe do município o auxílio em forma de combustível.
Elias Quinto dos Santos, de 47 anos, leva as crianças ao colégio em uma canoa com um pequeno motor de rabeta. Cheia, a embarcação quase desaparece rente à linha da água, e qualquer ondulação maior que o normal no lago representa um risco. Apesar de a escola funcionar normalmente, os alunos transportados por seu Elias só vão às aulas durante 13 dias por mês. "É só o que dá pra fazer com os 25 litros de gasolina que a prefeitura me dá. Não tenho condições de tirar do próprio bolso para completar o mês", afirma o condutor.
O barco de seu Elias fica rente à água
quando está cheio. Foto: Fábio Tito
Após o acompanhamento das rotas do dia, os coordenadores da pesquisa decidiram antecipar a ida ao município de Coari devido à pouca complexidade existente em Codajás. Coari possui uma malha fluvial mais extensa e situações diferentes que prometem contribuir melhor para os objetivos da pesquisa.

Gasoduto Coari-Manaus
Elias dos Santos é também líder da comunidade de São Francisco, que é habitada por 13 famílias. Ele afirma que a pequena vila fica a menos de 5 km do gasoduto Coari-Manaus, e por isso foi beneficiada em um programa de desenvolvimento sustentável do estado em parceria com a Petrobras. "Em 2007 a comunidade recebeu uma ambulancha e um motor para serrar mandioca. Além disso, a casa de farinha foi reformada, e o valor total desses investimentos foi de R$ 14 mil", afirma o líder.
A placa do lado de fora indica o programa em parceria com a Petrobras.
A casa de farinha foi reformada através desses recursos, direcionados a
comunidades próximas ao gasoduto Coari-Manaus. Fotos: Fábio Tito
Mas segundo ele, na época foi dito que o investimento local seria de R$ 25 mil - quantia que nunca foi alcançada. Seu Elias afirma também que participou em 2009 de uma reunião na sede do município, onde a coordenadora do programa disse aos líderes comunitários que novos recursos haviam sido liberados. "Ouvimos dizer que algumas comunidades receberam investimentos em fevereiro deste ano, mas por enquanto nós não recebemos nada", conta.

Presença da malária
Quando chegou à região com a família, 25 anos atrás, seu Elias conta que a presença da malária já era forte. "O povo nem sabia o nome da doença, costumavam chamar de 'cesão'. Morria muita gente que vinha explorar os seringais por aqui", lembra. Ele cita os sintomas que conhece bem: "Dá uma tremedeira, febre de 40º. Depois de três ou quatro dias, a pessoa já fica com feição de morto."
Elias dos Santos em frente ao posto de saúde de São Francisco,
construído em 2007 após um surto de malária na região. Foto: Fábio Tito
Nos anos de 2005 e 2006, a comunidade passou por um surto de malária. O líder comunitário conta que quase todos os moradores pegaram a doença uma ou duas vezes por ano. "Meu irmão era professor aqui e foi um dos casos mais graves, pegou malária sete ou oito vezes nesses dois anos. Eu mesmo já não sei mais quantas vezes peguei a doença até hoje. Foram mais de 10", afirma seu Elias.
Por Fábio Tito, de Codajás
Edição: Elza Pires de Campos

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Conheça a equipe da frente de pesquisa do barco escolar


Veja abaixo um pequeno perfil dos participantes em campo na frente de pesquisa do barco escolar rural:

Marcos Fleming, 52
Coordenador da Pesquisa do transporte Escolar Rural e gerente do projeto
Especialista em transporte, começou como pesquisador no CEFTRU em 2005 e passou por diversas áreas no centro de pesquisa. Antes, atuou na área de telecomunicações, sempre com foco no setor de transportes.
"É altamente gratificante encerrar com as comunidades ribeirinhas o ciclo de entendimento do transporte escolar, que começou com o rodoviário. A sensação é de que estamos fechando com chave de ouro. Com isso, vamos ter uma visão clara do que é o transporte escolar no país."

José Matsuo Shimoishi, 61
Professor orientador da pesquisa
Formado em Engenharia Civil pelo Instituto Mauá de Tecnologia, mestre e doutor em Engenharia Civil pela Universidade de Tóquio-Japão. Trabalha como professor do Departamento de Engenharia Civil da UnB desde 1986. Já foi chefe do departamento, além de coordenador do curso de mestrado. Atuou como diretor do CEFTRU desde sua criação, em 1996, até janeiro de 2010. Nos últimos anos, tem atuado mais na área de planejamento de transporte, mais especificamente na elaboração de planos diretores. Participou ativamente do Plano Diretor da área metropolitana de Belém e na estruturação do sistema de transporte coletivo de Manaus.
"Sempre gostei do trabalho de campo, de lidar diretamente com as pessoas que serão beneficiadas por programas no futuro. É muito interessante ver a realidade do transporte rural aquaviário em locais que eu não conhecia. A equipe que está atuando no campo é extraordinária, eles buscam coletar dados da forma mais fiel possível."

Renata Maia-Pinto, 50
Líder da frente de pesquisa do barco escolar
Formada em Pedagogia, mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano no Contexto Educacional e doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano e Saúde pela Universidade de Brasília. Foi professora especialista de pré-escolares e de crianças do Ensino Fundamental Maior, e lecionou em cursos superiores sempre na área de Educação. No Ministério da Educação, já atuou no Fundescola, na Secretaria de Educação Técnica e Tecnológica, na Secretaria de Educação Especial e na Coordenação de Apoio ao Transporte Escolar do FNDE. Foi então cedida ao CEFTRU para liderar a equipe da pesquisa do barco escolar.
"Algumas impressões ficaram marcadas. O grande estado de pobreza da região do Marajó e a sensação de abandono no que se refere à educação escolar rural; a amabilidade do povo ribeirinho, que sempre recebeu a equipe de braços abertos; a grandeza e a beleza dos rios, e as dificuldades que impõem a seu povo; e a grande relevância do transporte escolar por barco. Sem este meio, é impossível frequentar a escola. A pesquisa tem indicado que a opinião das pessoas envolvidas no transporte é extremamente importante para o entendimento deste tipo de serviço."

Marcelo Bousada, 36
Líder dos pesquisadores
Formado em Antropologia pela Universidade de Brasília, e cursa psicologia no Uniceub. Possui vasta experiência em pesquisa de campo, nas áreas de educação, saúde e meio ambiente. Sua última experiência foi de dois anos no projeto de pesquisa Casa Brasil, na área de aprendizagem em rede.
"É um trabalho nobre. Apesar de pesquisarmos o tema do transporte, fica claro que a preocupação maior de fato é com a educação. E o ineditismo desta pesquisa é estimulante."

Amanda Odelius, 28
Pesquisadora
Formada em Geografia pela Universidade de Brasília. Possui experiência em pesquisa, tanto de campo quanto acadêmica. Atuou em uma extensa pesquisa sobre mercados informais mobiliários, em Brasília, e também como pesquisadora assistente do Fundo das Nações Unidas em 2007, em um projeto sobre crescimento urbano. Viveu por dois anos em um veleiro na região dos EUA e Caribe, o que contou como experiência em embarcações para a pesquisa do barco escolar.
"É engrandecedora a experiência de conhecer de perto como vivem os ribeirinhos. Apesar de já ter viajado bastante, é a primeira vez em um trabalho que estou tendo um contato tão intenso com as comunidades. Também é a primeira vez que visito o Norte do Brasil."

 Ana Paula Antunes, 28
Pesquisadora
Formada em Arquitetura pela Universidade Federal da Paraíba, mestre em transporte pela Universidade de Brasília. Realizou sua pesquisa de mestrado em Anápolis, analisando o transporte escolar rural. Participou de outras pesquisas no âmbito de transportes, em Brasília, e integrou o CEFTRU em novembro de 2009. Participou do levantamento de material bibliográfico sobre comunidades ribeirinhas e transporte por barco para a Pesquisa de Transporte Escolar Rural.
"Profissionalmente é muito importante, pois estou conhecendo uma parte do transporte escolar pouco estudada. Contudo, o ganho pessoal é muito maior. A pesquisa está sendo incrível, conhecemos lugares pouco explorados e temos contato com pessoas com características muito peculiares. Também tenho a experiência de morar em um barco com um montão de gente que não conhecia antes. Tudo isso está sendo bacana."

André di Monaco, 28
Pesquisador
Formado em Geografia pela Universidade de Brasília. Atuou em uma extensa pesquisa sobre mercados informais mobiliários, em Brasília, e fez sua pesquisa de conclusão de curso sobre políticas urbanas do governo de Joaquim Roriz, no Distrito Federal. Morou no exterior por cinco anos, na Itália, EUA e Austrália, e tem grande experiência em embarcações.
"O projeto é muito bonito. E tem a virtude de ser um estudo novo. Também considero que a experiência pessoal de participar em uma pesquisa como esta é muito enriquecedora."

Diego Baravelli, 28
Pesquisador
Formado em Geografia pela UPIS. Esta é a segunda vez que atua em uma pesquisa pelo CEFTRU. Em 2009, integrou a equipe de pesquisadores que estudou as rodoviárias de capitais brasileiras, um estudo de parceria entre o CEFTRU e a ANTT.
"É um projeto grandioso. Dá um ânimo ainda maior de trabalhar, tanto pela importância do tema quanto pela região em que se realiza a pesquisa, que é pouco conhecida. Por conta da última pesquisa em que trabalhei, eu já conhecia o Norte, mas principalmente as capitais. É impressionante ver a vida das comunidades ribeirinhas no interior."

Fábio Tito, 23
Repórter e fotógrafo do blog TER Pesquisa
Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília. Atuou como fotógrafo na Secretaria de Comunicação da UnB e na revista Campus Repórter, da Faculdade de Comunicação. Recém-graduado, foi estagiário nas redações do Correio Braziliense, SBT e do site de notícias G1, da Rede Globo.
"Fiquei muito animado com a ideia de fazer parte deste trabalho. Além de acompanhar uma pesquisa tão importante, tenho a oportunidade de mostrar como é a vida à beira do rio, no interior da Amazônia. É uma loucura ver como o rio é de fato parte da vida das pessoas."

Sérgio Pereira Borges, 50
Cinegrafista
Formado em Publicidade pelo Uniceub. Já atuou nas áreas de pesquisa e política, e atualmente tem trabalhado mais em documentários.
"Já conhecia o norte de maneira geral, mas não em uma experiência longa e intensa como esta. É um aprendizado novo, e as belezas naturais são impressionantes. A equipe do barco se integrou de forma boa, todos trabalham muito bem juntos."

Wagner Alarcão, 51
Responsável pela logística
Formado em Administração pela Unieuro. Atuou em administração de empresas na área de Engenharia, e teve experiência com barcos a vela e lanchas por hobby desde os 20 anos.
"É maravilhoso conhecer a situação in loco. O choque de realidade é grande, você chega achando que é uma coisa e na verdade é outra. Vimos a diferença nas embarcações locais, na comida, e em pequenas coisas como o uso da água do rio para lavar roupas. A água barrenta é um problema para lavar roupas brancas, e esse tipo de coisa só se aprende na prática. Finalmente, para mim ficou claro que não dá para pensar de longe as soluções para comunidades como as que visitamos. Este tipo de pesquisa é necessário para que se entenda melhor essa realidade."

Também é importante citar a participação anterior em campo do pesquisador Henrique Coelho e do jornalista Efraim Netto, além das visitas de José Maria Rodrigues, coordenador geral de apoio à manutenção escolar do FNDE.
Por Fábio Tito, de Codajás

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Pesquisa chega a Codajás (AM), município conhecido como a "terra do açaí"

Na manhã de sábado, dia 8, a equipe de pesquisa chegou a Codajás, antepenúltimo município amazonense a participar do estudo sobre transporte escolar rural aquaviário. Codajás é conhecida como "terra do açaí". No final de semana anterior ocorreu a 23ª edição da Festa do Açaí, que atrai anualmente para a cidade um grande público local e de municípios vizinhos.

O por-do-sol visto do porto da sede de Codajás. Foto: Fábio Tito
O prefeito de Codajás, Agnaldo Dantas, foi recebido no barco Natureza ainda na manhã de sábado. Ele foi acompanhado pelo subsecretário de Educação do município e pelo coordenador educacional rural, e os três foram entrevistados para a pesquisa após a apresentação do projeto. O prefeito ressaltou a situação vivida pelo município em 2009. "Mais de 70% de Codajás sofreu alagamentos durante a cheia do rio. Algumas comunidades foram completamente submersas", afirma Dantas.
O município possui 44 escolas na zona rural e conta apenas com seis barcos para fazer o transporte escolar na região de várzea. Há comunidades que não são atendidas por essas embarcações, e elas se organizam para fazer o transporte por conta própria. A prefeitura auxilia apenas com o combustível.
No domingo (9), Dia das Mães, o barco Natureza se deslocou até o Lago do Miuá, entrando pela margem norte do rio Solimões. O lago tem águas escuras e fica em uma região muito bonita. A equipe passou o feriado descansando e aproveitando as belezas da região.
O pesquisador André di Monaco nadava próximo à lancha da pesquisa quando foi surpreendido pela presença de botos na água. Foto: Fábio Tito
Na região do Lago do Miuá vivem algumas comunidades que realizam o transporte por conta própria, com o auxílio do governo apenas em forma de combustível, e também algumas que são atendidas por um dos seis barcos escolares contratados pelo governo. Parte da equipe saiu de lancha na segunda-feira (10) para fazer contato com os barqueiros locais e combinar o acompanhamento das rotas no dia seguinte.
Por Fábio Tito, de Codajás

domingo, 9 de maio de 2010

Transporte escolar em situações bem diferentes no município de Manacapuru

A sexta-feira, dia 7, foi o último dia da pesquisa em Manacapuru (AM). A equipe de pesquisa do barco escolar acompanhou rotas em situações bem diferentes, uma delas no Lago do Jacaré e outra na Costa da Canabuoca III.
No Lago do Jacaré, o trajeto até a escola Ajuricaba I, na comunidade de São Geraldo, foi um dos mais complexos já acompanhados pela pesquisa. Os dois barqueiros usam três embarcações para cumprir uma rota que chega a levar 2h30min. O barco principal leva duas canoas a reboque, usadas para passar pelo capim que se acumula nas cabeceiras e fazer a passagem dos alunos entre a margem e o barco principal. Há inclusive um momento em que cada condutor sai em uma das canoas, enquanto as crianças esperam à deriva no barco principal. O vídeo abaixo mostra a árdua passagem de canoa pelo capim em um desses pontos.
video
Já na outra rota acompanhada pela pesquisa, viu-se a mesma característica do primeiro dia em Manacapuru: um barco de grandes dimensões transportando um grande número de alunos. A escola Mário Jorge do Couto Lopes fica na Costa da Canabuoca III, na comunidade de Cristo Ressuscitado. Às sextas-feiras os alunos só têm aula de educação física, e o barco local chega a levar mais de 70 crianças no período da manhã.
Barco lotado em uma das rotas acompanhadas na sexta-feira. Muitos alunos vão à escola descalços por causa da aula de educação física. Fotos: Fábio Tito
Da terra firme ao flutuante
Encostado à margem de Cristo Ressuscitado vive Mozar Alves Medeiros, de 48 anos, e sua família. Eles moram em uma casa flutuante há quatro anos - antes a família vivia em terra firme, em um terreno adentrando a margem da comunidade. "No flutuante é tudo mais fácil: tomar banho, limpar peixe, carregar material pro trabalho... Só precisa mover a casa de acordo com o nível do rio", afirma Mozar.
Ele é o líder de uma "campanha", que é um grupo de pescadores que se organizam para trabalharem juntos. A campanha de Mozar conta com 10 pessoas: alguns primos e primas dele, além do filho mais novo. A região é repleta de outras campanhas. "Tem época em que ficam até 200 canoas com redes no rio ao mesmo tempo, de tanto peixe que dá", conta o líder do grupo.
A aula de educação física ocorre no gramado em frente ao flutuante de Mozar. Do outro lado, à beira do rio, os componentes da campanha trabalham juntos. Fotos: Fábio Tito
Além de pescarem juntos, os membros da campanha costumam também realizar outros trabalhos - e dividir os frutos disso. Eles extraem a malva, que é uma fibra retirada da casca da planta homônima após deixá-la de molho na água do rio por vários dias. Essa fibra é comprada pela indústria para a fabricação de tecidos. Também colhem, descascam e fazem juntos a farinha de mandioca, apenas para o consumo próprio.
Morador da região pesa a malva já preparada para a venda. A fibra é comprada pela indústria têxtil. Foto: Fábio Tito
Isaías é o filho mais novo de Mozar, tem apenas 15 anos mas já ajuda diariamente nos trabalhos da campanha. Ele cursa o 1º ano do Ensino Médio à noite em uma escola na Vila do Jacaré. Até o ano passado as aulas eram durante o dia. "Agora eu ajudo mais em casa, mas também fico mais cansado. Vou às aulas depois de um dia inteiro de trabalho, e só chego de volta depois das 23h", afirma o jovem.
O filho de Mozar diz que a fartura de peixes na região também tem seu lado ruim. "Na seca, o Lago do Jacaré fica vazio e morre muito peixe. Vem um cheiro tão forte de lá que no ano passado até distribuíram máscaras nas salas de aula", relata. Isaías também confessa que não quer seguir os passos do pai. "Aqui a vida é de trabalho pesado. Quero estudar para ser advogado, e defender as pessoas que não conhecem seus direitos."
Por Fábio Tito, de Manacapuru

sábado, 8 de maio de 2010

Após Iranduba, barco Natureza chega a Manacapuru (AM) com a equipe de pesquisa

Na terça-feira (4), segundo dia acompanhando rotas escolares em Iranduba, a pesquisa visitou comunidades na Ilha da Marchantaria. Lá se dá grande parte da produção de hortifrutis que abastece os municípios de Manaus e Iranduba. Na comunidade de Novo Renascer fica a escola São Lázaro, e em São Francisco o colégio tem o mesmo nome da comunidade. O trajeto das rotas é feito no rio Solimões e no paraná do Comprido.
O nascer do sol sobre o Solimões visto do bico de um barco local. O condutor sai de casa enquanto ainda está amanhecendo. Foto: Fábio Tito
Alunos da escola São Lázaro observam com curiosidade a presença da equipe de pesquisa. Foto: Fábio Tito
O barco da pesquisa seguiu ainda na tarde de terça em direção ao município de Manacapuru, onde a equipe acompanha rotas durante o resto da semana. Na quarta-feira (5), retornou de Brasília a líder da frente de pesquisa do barco escolar, Renata Maia-Pinto. ela chegou ao barco Natureza acompanhada da equipe de filmagem que produzirá material audiovisual sobre o projeto. Durante o dia, os pesquisadores fizeram contato com barqueiros de comunidades a sudoeste da sede de Manacapuru, e decidiram quais trajetos seriam observados nos dias seguintes.
No caminho entre Iranduba e Manacapuru, uma tempestade se formou sobre o rio Solimões. Um enorme arco-íris apareceu às costas do barco Natureza. Foto: Fábio Tito
O coordenador geral de apoio à manutenção escolar do FNDE, José Maria Rodrigues, retornou a Brasília na quinta-feira (6) após acompanhar pela segunda vez um pouco da rotina na pesquisa do barco escolar. As rotas escolares acompanhadas na quinta servem às escolas Lima Bernardo e Monte Sião I, respectivamente nas comunidades de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Vila Supiá. Estas duas rotas apresentaram uma peculiaridade do município: o transporte escolar serve a grandes quantidades de alunos, o que exige embarcações maiores que as observadas pela pesquisa até então.
Barco escolar em Manacapuru. Muitas embarcações usadas no transporte de alunos são maiores que a média vista em outros municípios. Foto: André di Monaco
Essa peculiaridade dificultou a comparação dos barcos locais com a lancha escolar proposta pelo MEC, já que ela tem capacidade para 20 pessoas. A rota acompanhada até a escola Lima Bernardo, por exemplo, costuma levar mais de 60 estudantes. "No dia foram 68 alunos transportados, e mesmo assim ainda havia espaço de sobra no barco local", afirma o pesquisador André di Monaco. A lancha fez o trajeto de volta levando apenas os 20 alunos que moram mais longe do colégio.
Por Fábio Tito, de Manacapuru

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Pesquisa chega a Iranduba (AM) para acompanhar as primeiras rotas escolares

O caminho entre Manaus e Iranduba foi feito ainda na tarde de domingo, dia 2 de maio. O barco Natureza passou a noite ancorado no lago Janauary, que é ligado a um paraná do rio Solimões conhecido como furo do Paracuuba. É à beira desse canal que se encontra a escola Nossa Senhora da Conceição, na comunidade de Santo Antônio, uma das visitadas pela pesquisa na manhã de segunda-feira (3).
Além dessa rota, a pesquisa acompanhou também o trajeto de um transportador escolar que leva alunos ao lago Catalão, onde fica a escola Nossa Senhora Aparecida. Ao redor do lago, as comunidades têm uma característica que chama atenção: a grande maioria das habitações é flutuante, inclusive o colégio local. Foi a primeira escola flutuante visitada na expedição.
A escola flutuante Nossa Senhora Aparecida, no lago Catalão. Pelas
frestas no piso é possível ver a água do rio. Fotos: Fábio Tito.
Lá, uma característica já verificada em outras comunidades da Amazônia dificultou o trabalho da equipe. Não há aula no dia em que sai o pagamento dos funcionários da escola, porque eles se dirigem à sede do município para sacarem o dinheiro e fazerem transações bancárias. Devido a atrasos nos pagamentos, não tem sido possível estabelecer um dia exato para que a escola fique sem aula. Nem todos na comunidade ficaram sabendo a tempo que o salário havia saído durante o final de semana, e alguns alunos foram à toa até o colégio.
De início, a equipe também estava desavisada do fato, mas mesmo assim foi possível acompanhar a rota com o barqueiro local e fazer as entrevistas necessárias para a pesquisa. Na escola visitada pela outra equipe de pesquisadores, dois professores também haviam ido à cidade receber o salário, mas eles foram substituídos pela secretária e pelo diretor do colégio.
Joaquim dos Santos, de 41 anos, é o diretor da escola Nossa Senhora da Conceição e presidente da comunidade de Santo Antônio. Ele falou sobre um problema que tem amedrontado os moradores da região, principalmente os que têm filhos transportados de barco até a escola.

Navegação perigosa e as terras caídas
Quando a barqueira local chega à margem de Santo Antônio, Joaquim dos Santos já está lá para ajudar no desembarque dos alunos. Ele observa preocupado enquanto a pequena embarcação de alumínio sobe pelo furo do Paracuuba, um braço do rio Solimões que se forma durante a cheia. Não bastasse a correnteza intensa no local, há também o tráfego de diversas lanchas de passageiros. Isso principalmente no início da manhã e no horário de almoço, que são as horas em que se realiza o transporte escolar.
As crianças transportadas já saem de casa usando o colete
salva-vidas. À direita, o barco segue cheio enquanto uma lancha
de passageiros vem veloz à frente. Fotos: Fábio Tito
Essas lanchas de passageiros são embarcações compridas com motores potentes, que levam pessoas de Manaus até o alto do Solimões e vice-versa. "Elas passam sempre em alta velocidade, e a onda gerada é um perigo para os pequenos barcos que levam as crianças", afirma o diretor da escola. O medo é tanto que a comunidade criou um hábito raro nos municípios visitados pela pesquisa. Cada criança tem seu próprio colete salva-vidas. Quando o barco passa para apanhá-las, elas já saem de casa vestindo o acessório de segurança.
O diretor da escola em Santo Antônio, Joaquim dos Santos. À direita,
crianças vestem seus coletes antes de voltar para casa. Fotos: Fábio Tito
Margem próxima à escola - os deslizamentos
são constantes. Foto: Fábio Tito
Os problemas gerados pela velocidade das lanchas de passageiros vão além do risco ao transporte escolar. Segundo os moradores, os chamados "barcos a jato" alteram até a geografia do local. "Esse tipo de lancha só começou a circular neste trecho do ano de 2000 para cá. As ondas que elas produzem aceleram o deslizamento das margens, e a largura do canal cresceu de 15 para 150 metros nesses 10 anos", conta Joaquim. Como presidente da comunidade, ele luta há anos para que seja instalada sinalização que estabeleça limites de velocidade no local.
Por Fábio Tito, de Iranduba