domingo, 9 de maio de 2010

Transporte escolar em situações bem diferentes no município de Manacapuru

A sexta-feira, dia 7, foi o último dia da pesquisa em Manacapuru (AM). A equipe de pesquisa do barco escolar acompanhou rotas em situações bem diferentes, uma delas no Lago do Jacaré e outra na Costa da Canabuoca III.
No Lago do Jacaré, o trajeto até a escola Ajuricaba I, na comunidade de São Geraldo, foi um dos mais complexos já acompanhados pela pesquisa. Os dois barqueiros usam três embarcações para cumprir uma rota que chega a levar 2h30min. O barco principal leva duas canoas a reboque, usadas para passar pelo capim que se acumula nas cabeceiras e fazer a passagem dos alunos entre a margem e o barco principal. Há inclusive um momento em que cada condutor sai em uma das canoas, enquanto as crianças esperam à deriva no barco principal. O vídeo abaixo mostra a árdua passagem de canoa pelo capim em um desses pontos.
video
Já na outra rota acompanhada pela pesquisa, viu-se a mesma característica do primeiro dia em Manacapuru: um barco de grandes dimensões transportando um grande número de alunos. A escola Mário Jorge do Couto Lopes fica na Costa da Canabuoca III, na comunidade de Cristo Ressuscitado. Às sextas-feiras os alunos só têm aula de educação física, e o barco local chega a levar mais de 70 crianças no período da manhã.
Barco lotado em uma das rotas acompanhadas na sexta-feira. Muitos alunos vão à escola descalços por causa da aula de educação física. Fotos: Fábio Tito
Da terra firme ao flutuante
Encostado à margem de Cristo Ressuscitado vive Mozar Alves Medeiros, de 48 anos, e sua família. Eles moram em uma casa flutuante há quatro anos - antes a família vivia em terra firme, em um terreno adentrando a margem da comunidade. "No flutuante é tudo mais fácil: tomar banho, limpar peixe, carregar material pro trabalho... Só precisa mover a casa de acordo com o nível do rio", afirma Mozar.
Ele é o líder de uma "campanha", que é um grupo de pescadores que se organizam para trabalharem juntos. A campanha de Mozar conta com 10 pessoas: alguns primos e primas dele, além do filho mais novo. A região é repleta de outras campanhas. "Tem época em que ficam até 200 canoas com redes no rio ao mesmo tempo, de tanto peixe que dá", conta o líder do grupo.
A aula de educação física ocorre no gramado em frente ao flutuante de Mozar. Do outro lado, à beira do rio, os componentes da campanha trabalham juntos. Fotos: Fábio Tito
Além de pescarem juntos, os membros da campanha costumam também realizar outros trabalhos - e dividir os frutos disso. Eles extraem a malva, que é uma fibra retirada da casca da planta homônima após deixá-la de molho na água do rio por vários dias. Essa fibra é comprada pela indústria para a fabricação de tecidos. Também colhem, descascam e fazem juntos a farinha de mandioca, apenas para o consumo próprio.
Morador da região pesa a malva já preparada para a venda. A fibra é comprada pela indústria têxtil. Foto: Fábio Tito
Isaías é o filho mais novo de Mozar, tem apenas 15 anos mas já ajuda diariamente nos trabalhos da campanha. Ele cursa o 1º ano do Ensino Médio à noite em uma escola na Vila do Jacaré. Até o ano passado as aulas eram durante o dia. "Agora eu ajudo mais em casa, mas também fico mais cansado. Vou às aulas depois de um dia inteiro de trabalho, e só chego de volta depois das 23h", afirma o jovem.
O filho de Mozar diz que a fartura de peixes na região também tem seu lado ruim. "Na seca, o Lago do Jacaré fica vazio e morre muito peixe. Vem um cheiro tão forte de lá que no ano passado até distribuíram máscaras nas salas de aula", relata. Isaías também confessa que não quer seguir os passos do pai. "Aqui a vida é de trabalho pesado. Quero estudar para ser advogado, e defender as pessoas que não conhecem seus direitos."
Por Fábio Tito, de Manacapuru

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