quinta-feira, 29 de abril de 2010

Pesquisa se despede de Itacoatiara (AM) e vê os estragos da cheia de 2009

Seguindo contra o fluxo do Amazonas após as rotas realizadas em Nova Sião e Santa Maria do Taboca, o barco Natureza chegou à Ilha de Januário e atracou à margem de Conceição I, comunidade que fica na face sul dessa ilha. A região fica no oeste do município de Itacoatiara, próximo à divisa com Manaus. Na terça-feira, dia 27, a pesquisa acompanhou uma rota escolar que leva alunos à escola municipal Eduardo Gomes, em Conceição I, e outra cujo ponto final é a escola Coelho Neto, na comunidade de São Sebastião, do outro lado do rio Amazonas.
São Sebastião fica em uma costa do Amazonas conhecida popularmente como Varre-Vento, certamente devido aos fortes ventos que ajudam a agitar as águas do rio. Assim como Conceição I, se trata uma comunidade simples com pouca estrutura, e só agora está ocorrendo a instalação de postes elétricos como parte do programa Luz para Todos, do Governo Federal.
Por enquanto a energia é gerada por motores de luz, como em diversas outras comunidades - inclusive as da Ilha do Januário. A prefeitura costuma mandar o diesel para o funcionamento desses motores, mas há sempre um horário definido pela comunidade para que eles sejam desligados.
Em Conceição I, as marcas da grande cheia de 2009 ainda são evidentes, principalmente na escola local. A marca da água passa de 1 metro de altura nas paredes de alvenaria, e a maioria das portas e janelas foi quebrada ou arrancada pela força do rio. Mesmo assim, com salas que não podem ser trancadas à noite, a escola segue funcionando. O esforço dos professores, funcionários, alunos e pais é o que faz as aulas acontecerem.
Portas de salas foram arrancadas ou quebradas pela cheia de 2009 em Conceição I.
Parte do material novo já foi recebido, mas não instalado. Fotos: Fábio Tito
Paixão pelo ensino
Apenas dois professores dão aulas nos turnos matutino e noturno em Conceição I. Eles são responsáveis, sozinhos, pelo ensino de 1º ao 9º ano em turmas multisseriadas e com o auxílio de DVDs do Telecurso. O aparelho de DVD foi doado pela família de uma aluna, e a TV, por um barqueiro local. Do ano passado para este, a escola saiu de apenas 20 alunos para 72 matriculados.
Lucinei Pacheco Farias, de 42 anos, é barqueiro da comunidade e atribui o aumento das matrículas à chegada de Paulo Roberto Oliveira de Souza, o professor Paulo. "Ele chegou à comunidade no final de 2009, e pouco depois já saiu de porta em porta fazendo a matricula dos alunos pro ano seguinte. Eu o ajudei nesse trabalho", explica o barqueiro.
O professor Paulo, de 35 anos, conta que esse serviço voluntário foi necessário para mostrar que a região possuía mais alunos que precisavam da escola, mas eles acabavam se deslocando até colégios mais distantes para estudar. "A escola estava abandonada, em grande parte por causa da administração da comunidade. Muitos moradores reclamam da atuação do presidente", afirma.
Professorzão: Paulo Roberto na escola em Conceição I e dando
aula como voluntário em São Sebastião. Fotos: Fábio Tito
Além de atuar como um dos dois professores em Conceição I, Paulo também trabalha voluntariamente à tarde na escola de São Sebastião, do outro lado do rio Amazonas. Ele chega a dar aulas durante 12 horas por dia. "Muitas vezes não consigo almoçar direito, não dá tempo. Mas é um esforço que vale a pena", afirma. A comunidade agradece. "Quando ele teve problemas com o presidente e pediu transferência, a comunidade se mobilizou e pediu que ele ficasse", conta o barqueiro Lucinei.
O presidente da comunidade, Damião da Silva Lima, foi procurado para comentar as reclamações dos moradores, mas ele não estava em casa no dia em que a equipe atuou na região.
Por Fábio Tito, de Itacoatiara

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Percurso estreito em uma rota escolar e os remédios caseiros de Maria das Dores

Após passar o sábado, dia 24, na sede de Itacoatiara (AM), os pesquisadores se dirigiram já no domingo para o oeste do município, e visitaram as comunidades de Nova Sião e Santa Maria do Taboca.
Em Nova Sião, a rota escolar acompanhada passa por trechos estreitos, que o barqueiro faz em uma canoa com um motor de rabeta. Apesar das dificuldades devidas ao maior tamanho e ao motor de popa, a lancha escolar proposta pelo MEC conseguiu cumprir o trajeto de entrega dos alunos sem maiores problemas. Veja abaixo os trechos do percurso do barco local e da lancha passando por uma parte desta rota.
Santa Maria do Taboca fica dentro de uma reserva indígena à beira do rio Urubu, e é habitada por descendentes das tribos Mura (predominante) e Sateré. Azamor da Cruz Rosa Filho, de 33 anos, é o líder comunitário local há dez anos e explicou um pouco sobre a reserva indígena. "São 10 comunidades indígenas na região. A escola de Santa Maria do Taboca possui 70 alunos, tanto da própria comunidade quanto de Nova Jerusalém do Maquira, do outro lado do rio", afirma. Dos 70 estudantes, 45 usam o transporte escolar de barco para ir estudar.
Rota em Santa Maria do Taboca: à esquerda, a filha da barqueira ajuda
nas manobras de chegada e saída com um remo. De longe, o pequeno
barco já cheio parece sumir na água. Fotos: Fábio Tito
Tradição do passado, adaptada
A mãe de Azamor é Maria das Dores Rosa, de 74 anos. Sua simples casa de madeira possui apenas um cômodo - de um lado o fogão, do outro uma mesa e três cadeiras. Se falta lugar para sentar, o bujão de gás faz o serviço. As redes ficam esticadas no teto para não atrapalhar o trânsito das pessoas, e visita ali é o que não falta. "Além dos filhos e netos, os vizinhos também sempre passam para bater papo", conta a senhora.
As muitas amizades se devem não só à simpatia da mulher, mas também a um certo serviço que ela presta a quem precisa, como avisou o filho. "Ela é muito boa em fazer remédios caseiros. E funcionam mesmo!", afirma Azamor. Dona Maria confirma: "Sempre funcionou - desde a primeira vez que fiz, aos 17 anos. É como um dom de Deus, sabe?"
Mas se as curandeiras índias de antigamente acreditavam nos espíritos da natureza, Maria das Dores tem crenças diferentes. Ela é evangélica, e volta-e-meia cita trechos ou histórias da Bíblia. "Me converti aos 37 anos, mas acredito que mesmo antes disso era Deus quem me mostrava os remédios para as doenças", diz.
Dona Maria das Dores, especialista em remédios caseiros.
Segundo ela, a inspiração vem de Deus. Foto: Fábio Tito
Aos 17 anos de idade, ela conta que sua mãe adoeceu de febre por cinco dias seguidos, o corpo começou a inchar e ela não conseguia mais comer. "Eu estava caminhando no sítio do meu tio e vi uma planta que me chamou atenção. Veio na minha mente uma voz dizendo que aquele era o remédio para a minha mãe. Foi o primeiro milagre que Deus fez na minha vida", afirma. Dona Maria explica que preparou um banho quente com uma planta rosa, conhecida na região como "quina". Logo depois do banho a mãe já conseguia caminhar novamente, e melhorou por completo dentro de pouco tempo.
Tirando uma ou duas receitas que aprendeu da boca do povo, a mulher afirma que é sempre Deus quem mostra a planta e a maneira de prepará-la. Em uma breve conversa, ela conta de gente febril sendo curada com folhas de mangueira, tuberculosos tratados com agrião, e por aí vai. "Deus usa os filhos dele de diversas maneiras. Se ele me deu um dom, eu vou usá-lo para falar de Jesus às pessoas através disso", afirma a senhora.
Por Fábio Tito, de Itacoatiara

terça-feira, 27 de abril de 2010

Rotas escolares em Itacoatiara (AM) e os negócios de um novo empreendedor

O segundo município amazonense a ser visitado pela pesquisa de Transporte Escolar Rural foi Itacoatiara. O barco Natureza chegou ao porto na noite de quarta-feira, dia 21, após sair de Urucará no início da tarde subindo o rio Amazonas.
A cidade é uma das maiores do estado, com quase 90 mil habitantes, segundo o IBGE. São 140 escolas no interior do município e 17 na sede. Itacoatiara significa "pedra lavrada" em tupi, e o nome teve origem em uma rocha com escritos antigos encontrada no local, à margem do rio Amazonas. Durante o final da semana ocorreram as comemorações do aniversário de 136 anos de Itacoatiara, cuja data principal foi o dia 25 de abril, domingo.
A "pedra lavrada" que deu origem ao nome da cidade.
Supõe-se que os escritos foram feitos por jesuítas - e não por
índios nativos, como muitos acreditam. Foto: Fábio Tito
Na quinta-feira, a equipe se reuniu com o secretário municipal de Educação, Claudemilson Santos de Oliveira; o coordenador de transporte escolar, Celson Vilaça de Freitas; e Emanuel Viana de Souza, chefe de gabinete do prefeito da cidade. Após a apresentação do projeto, a programação das rotas a serem acompanhadas envolveu a ajuda de diversas pessoas da Secretaria Municipal de Educação, entre barqueiros, professores e subsecretários que conhecem bem as dificuldades da região.
Sentado à esquerda, o secretário de Educação do município
conversa com os pesquisadores sobre as rotas escolares. Diversos atores
da secretaria participaram da reunião. Foto: Fábio Tito
Ainda na tarde do mesmo dia, o barco da pesquisa se dirigiu à região do rio Arari, no sudeste do município, para fazer contato com barqueiros e combinar as rotas do dia seguinte. Duas escolas foram visitadas na sexta-feira (23), nas comunidades de Nossa Senhora de Fátima e Santa Rosa. Em Nossa Senhora de Fátima vive seu Santino, ex-barqueiro que fez o transporte de alunos na região por 11 anos. Agora ele se aventura pela primeira vez no comércio, em uma pequena mercearia que abriu dentro da própria casa.
A escola da comunidade de Nossa Senhora de Fátima.
Antes do início das aulas, crianças ficaram curiosas
com a presença dos pesquisadores. Fotos: Fábio Tito)
Novo empreendedor
Santino Lira Peixoto, de 46 anos, fica emotivo ao contar por que não é mais transportador escolar. "Um outro barqueiro achou que meu salário era bom, porque eu sempre ajudei quem precisa. Ele fez uma ata na comunidade dele pedindo que entrasse em meu lugar, foi uma confusão. Eu acabei abrindo mão e me afastei", afirma. Segundo ele, o salário líquido era de R$ 600, mas ele ainda tinha que pagar pelo combustível para o transporte. Isso implicava em um gasto de R$ 200 todo mês.
Para complementar a renda, o homem trabalhava em uma roça atrás da comunidade. "Enquanto os alunos tinham aula, eu ia para lá cuidar da roça. Fazia farinha de mandioca e vendia duas ou três sacas por mês em Itacoatiara, cada uma a R$ 180", conta. Uma saca tem volume de 80 litros.
Agora, no entanto, a preocupação maior de Santino é com a mercearia no térreo de sua casa, ao lado da escola de Nossa Senhora de Fátima. Ainda mais porque ele é iniciante no ramo do comércio, e está aprendendo na prática. "Sempre quis abrir um comércio aqui, até para facilitar a vida dos moradores. Comecei comprando os produtos que percebia que a comunidade precisava mais. E quando pediam algo que eu não tinha, avisava logo que na semana seguinte haveria", explica.
De olho nos negócios: Santino anota os pedidos da comunidade
para saber o que oferecer em sua mercearia. Foto: Fábio Tito
Os campeões de venda são os dindins e refrigerantes para alunos do colégio, e alimentos como frango congelado, linguiça e ovos para as famílias da comunidade. Em um mês, o investimento inicial já foi recuperado. E parece que Santino já pegou a visão necessária a um bom empreendedor. "Quero começar a comprar frutas da comunidade para vender em Itacoatiara (sede), tenho um cunhado lá que é feirante. Assim ganho dos dois jeitos, levando para lá e trazendo para cá", planeja, animado.
Por Fábio Tito, de Itacoatiara

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Animais de estimação peculiares em Urucará (AM)

Durante a visita a comunidades do interior de Urucará, ficou claro que muitas famílias têm o hábito de criar animais da floresta por simples prazer. Eles são criados soltos, e as crianças são as que mais se divertem. Elas não demoram a trazer seus bichos para a frente da câmera, empolgados com a atenção.

Crianças do interior de Urucará mostram seus bichos de estimação:
um papagaio e filhotes de periquito. Foto: Fábio Tito
Mas o animal que mais surpreendeu não foi periquito nem papagaio. Chiquita é uma macaquinha aranha (espécie chamada de "cuatá" na região) de um ano de idade, que sobreviveu milagrosamente após sua mãe ser morta por um caçador, como conta sua dona.
Quando a macaquinha chegou à sua nova casa, ainda cabia na palma da mão e sequer tinha pelos. Um ano depois, ela já é parte da família. Com mais de meio metro de altura, ela brinca com as crianças, assiste à novela no colo da "mãe adotiva", faz uma bagunça e tanto. "É realmente como uma criança, cuidar dá trabalho. Ela mexe em tudo, é super curiosa", conta a mulher.
Chiquita vive solta, e às vezes se aventura em alguma árvore próxima da casa. Mas diante da câmera, ela é só timidez. Corre para se esconder em sua pequena rede, armada sob uma mesa de canto, e começa a balançar. Segundo a dona, aquele é seu lugar preferido. Sob o olhar da visita, ela só sai de lá quando oferecem a mamadeira.
Chiquita, a macaca aranha criada solta por uma família no interior do Amazonas. Com
1 ano de idade, ela toma mamadeira e dorme em sua própria rede. Fotos: Fábio Tito
Perto da "mãe", o rabo logo se entrelaça às pernas da mulher, buscando proteção. "Meu medo é do ciúme que ela tem, estou grávida de oito meses e não sei como ela vai reagir ao bebê", diz a dona.
Por Fábio Tito, de Urucará

Rotas escolares em Urucará mostram variedade nos desafios a serem superados

Após uma noite de trabalho acompanhando rotas escolares noturnas na região do Comprido, interior do município de Urucará (AM), os pesquisadores fizeram na manhã de terça-feira (20) a rota com mais alunos vista até o momento. O barco Princesa Marcia chega a levar diariamente mais de 60 alunos de comunidades na região do igarapé do Comprido até a escola municipal agrícola Sheila Falabella.
O barqueiro precisa sair de casa às 4h10 para cumprir a rota antes do início das aulas, o trajeto leva em torno de 2 horas e 30 minutos. Não é de se espantar que o homem reclame da dificuldade em manter a disciplina em meio a tantos estudantes, e por um período tão longo. "Ele contou que geralmente a viagem é uma bagunça, uma festa. Realmente são muitos adolescentes, é difícil de controlar", conta o pesquisador Marcelo Bousada.
A quantidade de alunos transportados no dia estava um pouco abaixo da média: eram 54. Mesmo assim, o caminho de volta não foi feito por uma, mas pelas duas lanchas escolares da pesquisa. Essas embarcações, que são protótipos sugeridos pelo Ministério da Educação, possuem apenas 20 lugares individuais.
A exceção de uma rota com tantos alunos transportados tornou necessário
usar as duas lanchas escolares para o trajeto de volta. Fotos: Fábio Tito
Na tarde do mesmo dia, o barco Natureza saiu com os pesquisadores já em direção às comunidades de Sol Nascente e Sororoca, que ficam em uma região de lagos. Mesmo com o feriado do dia seguinte, 21 de abril (Tiradentes), a secretária municipal de Educação explicou que as aulas seriam normais. "Tivemos um atraso no início das aulas este ano, por isso os feriados estão sendo usados para reposição", afirma Maria Jacira.
Troncos de árvore complicam o trajeto no Amazonas. Muitos são frutos de deslizamentos.
Fotos (da esq. para a dir.): André di Monaco, Fábio Tito e Diego Baravelli
A maior dificuldade das rotas acompanhadas na quarta-feira é que as duas têm que passar pelo rio Amazonas. Nesta época do ano, o rio está na cheia e seu leito é preenchido por troncos e vegetação de margens alagadiças ou de deslizamentos. "Tivemos que sair às 4h, ainda no escuro e chovendo, para nos encontrarmos com o barqueiro. Cruzar o Amazonas sob essas condições foi bastante tenso", afirma a pesquisadora Amanda Odelius.
Por Fábio Tito, de Urucará

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Urucará, primeiro município no Amazonas a ser visitado pela pesquisa

Os pesquisadores da pesquisa de Transporte Escolar Rural chegaram no último sábado (17) a Urucará, primeiro município amazonense da expedição. O caminho de Faro (PA) a Urucará foi feito saindo do rio Nhamundá e adentrando o rio Amazonas, subindo contra seu fluxo.
O porto de Urucará, no qual o barco Natureza
atracou durante o final de semana. Foto: Fábio Tito
A sede de Urucará fica localizada no extremo sul do município, assim como ocorre em Faro e Óbidos. Isso porque é ao sul desses municípios que passa o rio Amazonas, concentrando comércio e tráfego na região. Urucará fica à margem de um braço do rio Amazonas, chamado de paraná de Urucará.
Já no sábado de manhã, os pesquisadores receberam a secretária municipal de Educação, Maria Jacira, e o coordenador de transporte escolar, Manoel Benvindo, para uma reunião no barco Natureza. Após a apresentação da pesquisa e a programação das rotas a serem acompanhadas a partir do início da semana, foram feitas as entrevistas com os dois gestores e o levantamento da infraestrutura de Urucará.
Na folga de sábado à tarde, os pesquisadores conheceram a região de Taboari Grande, a oeste da sede do município. Segundo os locais, as margens arenosas são ainda mais extensas e bonitas durante a seca do rio.
O barco Natureza seguiu na segunda-feira (19) à tarde em direção às comunidades de São Lázaro e Nazaré, que ficam à beira do igarapé do Comprido, a leste da sede de Urucará. Lá, pela primeira vez a pesquisa acompanhou rotas noturnas. A possibilidade de ter aulas à noite foi o que fez Orlando dos Santos Serrão, agricultor de 46 anos, voltar a sonhar com a graduação do Ensino Médio.

Carapanãs e aula virtual
São 18h05 no horário do Amazonas quando Orlando entra com sua filha no barco escolar que os leva até a escola Nossa Senhora de Nazaré, na comunidade de Nazaré. Parece ser o horário de pico dos "carapanãs", vorazes mosquitos de beira de rio comuns em toda a região amazônica. O caminho no escuro é guiado pela lanterna de um dos filhos do barqueiro, que vai no bico do barco mirando obstáculos como tapagens ou troncos para alertar o pai. O silêncio é quebrado seguidamente pelo estalar das palmas matando carapanãs - nas pernas, nos pés, nos braços.
Orlando (dir.) adentra o barco escolar pouco antes de escurecer. À direita,
o filho do barqueiro ajuda iluminando o caminho no rio. Fotos: Fábio Tito
À porta da escola, Orlando conta que está na mesma série de Kiara, de 22 anos, única mulher dos quatro filhos do agricultor. "Estamos no último ano do Ensino Médio, em dezembro se Deus quiser nos formamos", diz o homem, animado. Seu único pesar é não estar acompanhado da esposa, Maria Eomelina dos Reis Pantoja. Ainda jovens, os dois pararam de estudar na 5ª série. Voltaram quando apareceu a oportunidade de estudar à noite na própria comunidade, quase 20 anos depois. "Fizemos juntos até a 8ª série e ela parou. Mas eu e minha filha continuamos, e tentamos convencê-la a voltar", afirma o marido.
Orlando e a filha, Kiara, no corredor da escola. Os dois pretendem se
formar no Ensino Médio ainda este ano. Foto: Fábio Tito
Enquanto isso, de dentro da sala soa uma melodia já conhecida dos alunos. É o hino do Amazonas, apresentado antes de cada aula. Quem observa a classe percebe que os olhos estão fixos não no professor, mas num grande monitor de tela plana. É uma turma de Ensino Presencial com Mediação à Distância, que assiste ao vivo à explicação sobre polinômios dada pela professora de matemática, transmitida direto de Manaus. O professor assistente em sala presta atenção à aula tanto quanto os alunos, e tira dúvidas nos momentos de exercícios. Uma webcam filma o ambiente, monitorado de Manaus assim como diversas outras turmas do município.
O professor assistente tira dúvidas
nos exercícios. Foto: Fábio Tito
"Foi uma ideia muito boa para gente simples como nós. Eu pude voltar a estudar sem parar com o trabalho, e minha filha não precisou ir para Urucará (sede) cursar o Ensino Médio", comenta Orlando. Segundo ele, é necessário um mínimo de 15 alunos para manter uma turma funcionando. "Não é difícil conseguir esse número aqui na comunidade, só espero convencer minha esposa a voltar no ano que vem. O conhecimento é muito importante para qualquer pessoa, independente do trabalho", afirma o agricultor.
Por Fábio Tito, de Urucará

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Pesquisa acompanha as últimas rotas escolares no estado do Pará

Ainda na tarde de quarta-feira, dia 14, o barco Natureza se deslocou subindo o rio Nhamundá, no município de Faro (PA). O objetivo era chegar até um ponto intermediário entre as comunidades de Aibi e Mabaia, aonde os pesquisadores iriam em lanchas separadas para combinar o acompanhamento das rotas escolares do dia seguinte.

Os pesquisadores acompanharam o nascer do sol à beira da casa
de um barqueiro em Aibi, no município de Faro. Foto: Fábio Tito
Acabou-se descobrindo que não haveria aula na escola de Mabaia, e a única opção dos pesquisadores foi então acompanhar duas rotas diferentes para o mesmo colégio, em Aibi. A equipe acordou às 4h de quinta-feira (15) para encontrar os barqueiros no início das rotas, mas acabou tendo que esperar 1 hora além do combinado. Os condutores falaram do horário de saída referindo-se ao que eles chamam de "horário antigo", o mesmo seguido no Amazonas. Poucos anos atrás, o Pará teve seu horário atrelado ao de Brasília. Muitas comunidades do interior, no entanto, reclamam da mudança e algumas até continuaram seguindo o horário antigo.
Já no período da tarde, o barco da pesquisa seguiu em direção a Ubim e Maracanã, comunidades vizinhas mais próximas à sede de Faro. "As duas vilas possuem infraestrutura pouco mais desenvolvida que Aibi, provavelmente pela proximidade à sede e a Nhamundá", afirma o pesquisador André di Monaco. Nhamundá, além de ser o nome do rio, é também o nome de um município vizinho - e de sua sede, por tabela. As sedes de Faro e Nhamundá ficam próximas uma à outra.
Crianças da comunidade de Aibi aprovam a lancha escolar proposta pelo MEC. Foto: Fábio Tito
Merendeiras sem merenda
Em Ubim, comunidade habitada por em torno de 100 famílias, a escola Nossa Senhora de Fátima é comandada pelo gestor Éder Jofre Medeiros Pimentel, de 33 anos. Lá estudam 145 alunos do maternal à 8ª série, nos turnos matutino e vespertino. O gestor falou sobre um problema verificado em diversas outras escolas do estado, que é resolvido em parte pela iniciativa dos funcionários e alunos do colégio.
"Neste ano ainda não recebemos merenda escolar. Ela costuma vir apenas três ou quatro vezes por ano, e não dura sequer um mês quando chega", diz Éder. Segundo ele, os professores acabam juntando dinheiro entre si ou trazem frutas de casa para que haja merenda pela menos uma vez na semana, geralmente às sextas-feiras. "E quando tem aniversário de algum professor, os próprios alunos se juntam e pedem autorização para usar o forno da escola e fazer um bolo", acrescenta o gestor da escola.
O gestor, Éder, e as merendeiras, Gracenilda e Marta. A escola só
recebe merenda três ou quatro vezes por ano. Foto: Fábio Tito
A ironia é que, mesmo sem receber a merenda da prefeitura, o turno matutino do colégio é atendido por duas merendeiras concursadas - Gracenilda Rocha da Costa e Marta Helena Moraes Guerreiro. "Na maior parte do tempo trabalhamos como serventes, limpando salas e banheiros", conta Gracenilda. Ao mostrar uma panela usada pela última vez no ano passado, Marta limpa as teias de aranha que surgiram no fundo. "É tanto tempo sem usar que dá nisso", explica a merendeira.
Por Fábio Tito, de Faro

Pesquisadores chegam a Faro, último município do Pará no roteiro da expedição

O barco Natureza saiu de Óbidos (PA) na tarde de terça-feira, dia 13, e seguiu subindo o rio Amazonas até entrar pelo rio Nhamundá, à margem do qual se encontra a sede do município de Faro (PA). A viagem durou 12 horas, e a embarcação passou a noite ancorada em frente à prefeitura municipal. Faro é a última parada da expedição no estado do Pará; os sete municípios restantes fazem parte do Amazonas.

O secretário Valdinei Gomes Costa em entrevista à
pesquisadora Ana Paula Antunes. Foto: Fábio Tito
Na manhã de quarta-feira (14), os pesquisadores se reuniram com o secretário municipal de Educação, Valdinei Gomes Costa, e com o prefeito de Faro, Denilson Batalha Guimarães. Após a apresentação do projeto e a programação das rotas escolares a serem acompanhadas nos dias seguintes, os pesquisadores conheceram por acaso o barqueiro da comunidade de Português, que fica a algumas horas de barco da sede do município, na região chamada de Alto Nhamundá.
Alonso Guerreiro, de 46 anos, havia se deslocado até a sede para sacar seu salário - que por sinal não havia sido depositado. Ele informou que uma professora da escola de Português também estava em Faro, e por isso não haveria aula lá no dia seguinte. Isso provocou mudança na programação das rotas a serem acompanhadas, mas também permitiu que Alonso contasse ao repórter do blog TER Pesquisa um pouco de sua história.

Pouco dinheiro e família grande
O atraso no salário, segundo o barqueiro Alonso Guerreiro, não é a única dificuldade que ele enfrenta. “A prefeitura também fornece a gasolina para o transporte escolar, mas não em quantidade suficiente. Eles dão 20 litros, e isso só dá para metade do mês”, afirma. Ele explica que tira do próprio bolso o dinheiro para comprar os outros 20 litros de combustível gastos em 30 dias. O litro da gasolina é vendido a R$ 4 em Português, o que significa um gasto de R$ 80 para Alonso.
O barqueiro é casado com Maria do Carmo da Silva Forte, de 47 anos, e eles vivem com sete de seus 11 filhos. O salário do pai da família é de R$ 510, e é complementado por R$ 167 do programa Bolsa Família, recebido pela mãe. Eles também costumam vender farinha de mandioca. “O salário é muito pouco para uma família tão grande. E agora está ainda mais difícil, porque não tem dado mandioca como antigamente”, conta Maria do Carmo.
Alonso (esq.) e Maria do Carmo (centro), com cinco dos sete filhos
que moram com o casal. A família foi até a sede de Faro para
buscar o salário do pai, que não saiu. Foto: Fábio Tito
A mulher conta também do filho Jeremias, que parou de estudar. “Ele tinha que remar uma hora e meia para assistir as aulas, porque não tinha transporte até a escola em que ele estava matriculado. Quando chegava, já não tinha nem ânimo para prestar atenção na aula. E depois ainda tinha o caminho de volta”, relata a mãe.
Outro de seus filhos, Salomão, foi mandado para morar com a tia na comunidade de Terra Santa para cursar o Ensino Médio (em Português, o ensino é até a 8ª série). “Lá as escolas são melhores. Eu sempre falo para ele caprichar nos estudos, para que tenha um futuro melhor”, conta. A Bíblia diz que Salomão foi um dos homens mais sábios da história. Se depender do nome, o filho de Alonso e Maria tem tudo para alcançar um futuro brilhante.
Por Fábio Tito, de Faro

Rotas escolares em Óbidos e a vida de um aluno cadeirante

A primeira atividade programada para a segunda-feira, dia 12, foi o encontro com o vice-prefeito de Óbidos, Rudimar Cardoso. Todos os pesquisadores de campo participaram da reunião, voltada principalmente para apresentar a pesquisa e posteriormente entrevistar o vice-prefeito, que então respondia como prefeito em exercício. Após a reunião, apenas Marcelo Bousada ficou para aplicar a entrevista, pois os outros pesquisadores tiveram que partir para preparar a saída das lanchas.
Alunos da escola Ruy Barata, em Mamauru, sentados
na escada do colégio. Foto: Diego Baravelli
As rotas acompanhadas eram no período vespertino, mas foi necessário sair ainda durante a manhã para acompanhar o trajeto dos barqueiros até escolas nas comunidades de Mamauru e Castanhanduba, na área de Igarapé Grande, a leste da sede de Óbidos. Importante observar que Castanhanduba é uma vila comunitária quilombola.
Após passar boa parte do dia no convívio das comunidades, os pesquisadores perceberam uma atitude diferente nas crianças. "Andando com um agente de saúde local, crianças bem pequenas vieram pedir a benção ao homem. Em seguida elas me cercaram fazendo o mesmo, estendendo as mãozinhas para mim", conta a pesquisadora Amanda Odelius. Desconsertada, ela não soube inicialmente como reagir ao costume local, mas logo pegou o jeito.
Na terça-feira, dia 13, quatro dos cinco pesquisadores precisaram madrugar para acompanhar rotas matutinas na comunidade de Silêncio e novamente em Mamauru. Como Castanhanduba, Silêncio também é um quilombola. Enquanto isso, a pesquisadora Ana Paula Antunes e o representante do blog TER Pesquisa foram conhecer Neilson Farias Ferreira, único aluno cadeirante do município.

Obstáculos para estudar
Aos 17 anos, Neilson acabou de cursar a 4ª série. Como sua casa fica na várzea do município, onde o calendário é adaptado à cheia do rio, ele começará a 5ª série ainda este ano, mas no segundo semestre. "Só comecei a estudar aos 12 anos, o que está fora do padrão estabelecido pelo MEC. O certo seria ter começado aos 6", afirma. Segundo o adolescente, o governo municipal atual deu mais condições para que ele conseguisse acompanhar os estudos.
Durante o período de aulas, o pai e o barqueiro precisam ajudá-lo a entrar e sair do barco, já que não há uma entrada adaptada. "E na escola os colegas também sempre me ajudaram bastante", lembra o aluno. A equipe da pesquisa levou o garoto para conhecer e dar um passeio na lancha usada como protótipo nas comunidades. "Como o barco, ela também não possui adaptação para cadeirantes, e isso deve ser levado em conta pela pesquisa", diz Marcelo Bousada, líder dos pesquisadores.
Na casa da avó, Neilson não faz questão de usar a cadeira-de-rodas.
O pai o ajuda no caminho até a beira do rio. Foto: Fábio Tito
O que Neilson gosta mais de fazer é ler. "Gosto do Menino Maluquinho, almanaques do Chico Bento... Também leio muito a Bíblia e livros de cantos (religiosos)", diz. Bem articulado e com excelente memória, ele comenta sobre política citando nome e sobrenome de ministros, senadores, deputados e políticos locais. Mas garante que não tem interesse em cargos públicos. "Quero ser advogado. Acho que muitas pessoas são prejudicadas porque não conhecem seus direitos", afirma o jovem.
Por Fábio Tito, de Óbidos

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pesquisa chega a Óbidos, cidade mais portuguesa da linha do Equador

O retorno à sede do município de Santarém (PA) foi feito na noite de quinta para sexta-feira, dia 8 de abril. De lá viajaram para Brasília José Maria Rodrigues, coordenador geral de apoio à manutenção escolar do FNDE, e Renata Maia-Pinto, líder da frente de pesquisa do barco.
Os pesquisadores passaram o dia inserindo no sistema os dados coletados em pesquisa durante a semana. No sábado, às 10h da manhã, o barco Natureza saiu de Santarém em direção ao município de Óbidos, também no Pará. Após subir o rio Tapajós e entrar pelo Sururu, a embarcação chegou ao rio Amazonas. Seguindo contra o fluxo do Amazonas, o Natureza atracou no porto da cidade de Óbidos, sede do município.
O porto de Óbidos, em frente à garganta do Amazonas. Foto: Fábio Tito
Apontada como a cidade mais portuguesa da linha do Equador, Óbidos possui diversos edifícios tombados como patrimônio histórico. As construções no local começaram a ser feitas em 1697, fundando a base de um forte que garantiria o domínio português no rio Amazonas. O ponto é estratégico, pois fica à beira de uma garganta que é passagem obrigatória de quem sobe ou desce o rio.
A área de várzea do município é extensa e possui diversas escolas. Logo que chegou, a equipe de pesquisadores foi surpreendida por uma notícia inesperada. "As escolas de várzea entram de férias na época da cheia do rio. As aulas acabaram no final de março", avisa Irami Canto Tavares Filho, coordenador de transporte escolar do município. Segundo ele, as 31 escolas que ficam na várzea seguem um calendário diferente, que vai de julho ou agosto de um ano até março do ano seguinte - o período de seca. "Durante a cheia, muitas escolas na região ficam alagadas e é impossível ter aula", justifica.
No domingo (11), o coordenador guiou os pesquisadores de lancha até Igarapé Grande, que fica na região de terra firme mas possui grandes lagos entre as comunidades. Lá as escolas seguem o calendário regular, e alguns estudantes precisam ir de barco até a aula. A equipe visitou alguns barqueiros que fazem o trajeto desses alunos e programou as rotas a serem acompanhadas no início da semana.
O secretário municipal de Educação e o
coordenador de transporte escolar conversam com
o pesquisador Marcelou Bousada. Foto: Fábio Tito
Na volta, os pesquisadores entrevistaram o secretário municipal de Educação, Edson de Pádua. Ele também falou sobre a complexidade dos calendários escolares no município, e ressaltou a longa jornada que os estudantes às vezes precisam enfrentar por causa do transporte. "Há crianças que saem de casa às 9h para assistirem aula à tarde, e só chegam de volta em casa às 21h. Isso faz que o tempo de convívio com a família seja muito pequeno", afirma. Em sua opinião, uma alternativa de transporte mais rápido ajudaria muito a evitar situações como essa.
Por Fábio Tito, de Óbidos