segunda-feira, 19 de abril de 2010

Pesquisa acompanha as últimas rotas escolares no estado do Pará

Ainda na tarde de quarta-feira, dia 14, o barco Natureza se deslocou subindo o rio Nhamundá, no município de Faro (PA). O objetivo era chegar até um ponto intermediário entre as comunidades de Aibi e Mabaia, aonde os pesquisadores iriam em lanchas separadas para combinar o acompanhamento das rotas escolares do dia seguinte.

Os pesquisadores acompanharam o nascer do sol à beira da casa
de um barqueiro em Aibi, no município de Faro. Foto: Fábio Tito
Acabou-se descobrindo que não haveria aula na escola de Mabaia, e a única opção dos pesquisadores foi então acompanhar duas rotas diferentes para o mesmo colégio, em Aibi. A equipe acordou às 4h de quinta-feira (15) para encontrar os barqueiros no início das rotas, mas acabou tendo que esperar 1 hora além do combinado. Os condutores falaram do horário de saída referindo-se ao que eles chamam de "horário antigo", o mesmo seguido no Amazonas. Poucos anos atrás, o Pará teve seu horário atrelado ao de Brasília. Muitas comunidades do interior, no entanto, reclamam da mudança e algumas até continuaram seguindo o horário antigo.
Já no período da tarde, o barco da pesquisa seguiu em direção a Ubim e Maracanã, comunidades vizinhas mais próximas à sede de Faro. "As duas vilas possuem infraestrutura pouco mais desenvolvida que Aibi, provavelmente pela proximidade à sede e a Nhamundá", afirma o pesquisador André di Monaco. Nhamundá, além de ser o nome do rio, é também o nome de um município vizinho - e de sua sede, por tabela. As sedes de Faro e Nhamundá ficam próximas uma à outra.
Crianças da comunidade de Aibi aprovam a lancha escolar proposta pelo MEC. Foto: Fábio Tito
Merendeiras sem merenda
Em Ubim, comunidade habitada por em torno de 100 famílias, a escola Nossa Senhora de Fátima é comandada pelo gestor Éder Jofre Medeiros Pimentel, de 33 anos. Lá estudam 145 alunos do maternal à 8ª série, nos turnos matutino e vespertino. O gestor falou sobre um problema verificado em diversas outras escolas do estado, que é resolvido em parte pela iniciativa dos funcionários e alunos do colégio.
"Neste ano ainda não recebemos merenda escolar. Ela costuma vir apenas três ou quatro vezes por ano, e não dura sequer um mês quando chega", diz Éder. Segundo ele, os professores acabam juntando dinheiro entre si ou trazem frutas de casa para que haja merenda pela menos uma vez na semana, geralmente às sextas-feiras. "E quando tem aniversário de algum professor, os próprios alunos se juntam e pedem autorização para usar o forno da escola e fazer um bolo", acrescenta o gestor da escola.
O gestor, Éder, e as merendeiras, Gracenilda e Marta. A escola só
recebe merenda três ou quatro vezes por ano. Foto: Fábio Tito
A ironia é que, mesmo sem receber a merenda da prefeitura, o turno matutino do colégio é atendido por duas merendeiras concursadas - Gracenilda Rocha da Costa e Marta Helena Moraes Guerreiro. "Na maior parte do tempo trabalhamos como serventes, limpando salas e banheiros", conta Gracenilda. Ao mostrar uma panela usada pela última vez no ano passado, Marta limpa as teias de aranha que surgiram no fundo. "É tanto tempo sem usar que dá nisso", explica a merendeira.
Por Fábio Tito, de Faro

Pesquisadores chegam a Faro, último município do Pará no roteiro da expedição

O barco Natureza saiu de Óbidos (PA) na tarde de terça-feira, dia 13, e seguiu subindo o rio Amazonas até entrar pelo rio Nhamundá, à margem do qual se encontra a sede do município de Faro (PA). A viagem durou 12 horas, e a embarcação passou a noite ancorada em frente à prefeitura municipal. Faro é a última parada da expedição no estado do Pará; os sete municípios restantes fazem parte do Amazonas.

O secretário Valdinei Gomes Costa em entrevista à
pesquisadora Ana Paula Antunes. Foto: Fábio Tito
Na manhã de quarta-feira (14), os pesquisadores se reuniram com o secretário municipal de Educação, Valdinei Gomes Costa, e com o prefeito de Faro, Denilson Batalha Guimarães. Após a apresentação do projeto e a programação das rotas escolares a serem acompanhadas nos dias seguintes, os pesquisadores conheceram por acaso o barqueiro da comunidade de Português, que fica a algumas horas de barco da sede do município, na região chamada de Alto Nhamundá.
Alonso Guerreiro, de 46 anos, havia se deslocado até a sede para sacar seu salário - que por sinal não havia sido depositado. Ele informou que uma professora da escola de Português também estava em Faro, e por isso não haveria aula lá no dia seguinte. Isso provocou mudança na programação das rotas a serem acompanhadas, mas também permitiu que Alonso contasse ao repórter do blog TER Pesquisa um pouco de sua história.

Pouco dinheiro e família grande
O atraso no salário, segundo o barqueiro Alonso Guerreiro, não é a única dificuldade que ele enfrenta. “A prefeitura também fornece a gasolina para o transporte escolar, mas não em quantidade suficiente. Eles dão 20 litros, e isso só dá para metade do mês”, afirma. Ele explica que tira do próprio bolso o dinheiro para comprar os outros 20 litros de combustível gastos em 30 dias. O litro da gasolina é vendido a R$ 4 em Português, o que significa um gasto de R$ 80 para Alonso.
O barqueiro é casado com Maria do Carmo da Silva Forte, de 47 anos, e eles vivem com sete de seus 11 filhos. O salário do pai da família é de R$ 510, e é complementado por R$ 167 do programa Bolsa Família, recebido pela mãe. Eles também costumam vender farinha de mandioca. “O salário é muito pouco para uma família tão grande. E agora está ainda mais difícil, porque não tem dado mandioca como antigamente”, conta Maria do Carmo.
Alonso (esq.) e Maria do Carmo (centro), com cinco dos sete filhos
que moram com o casal. A família foi até a sede de Faro para
buscar o salário do pai, que não saiu. Foto: Fábio Tito
A mulher conta também do filho Jeremias, que parou de estudar. “Ele tinha que remar uma hora e meia para assistir as aulas, porque não tinha transporte até a escola em que ele estava matriculado. Quando chegava, já não tinha nem ânimo para prestar atenção na aula. E depois ainda tinha o caminho de volta”, relata a mãe.
Outro de seus filhos, Salomão, foi mandado para morar com a tia na comunidade de Terra Santa para cursar o Ensino Médio (em Português, o ensino é até a 8ª série). “Lá as escolas são melhores. Eu sempre falo para ele caprichar nos estudos, para que tenha um futuro melhor”, conta. A Bíblia diz que Salomão foi um dos homens mais sábios da história. Se depender do nome, o filho de Alonso e Maria tem tudo para alcançar um futuro brilhante.
Por Fábio Tito, de Faro

Rotas escolares em Óbidos e a vida de um aluno cadeirante

A primeira atividade programada para a segunda-feira, dia 12, foi o encontro com o vice-prefeito de Óbidos, Rudimar Cardoso. Todos os pesquisadores de campo participaram da reunião, voltada principalmente para apresentar a pesquisa e posteriormente entrevistar o vice-prefeito, que então respondia como prefeito em exercício. Após a reunião, apenas Marcelo Bousada ficou para aplicar a entrevista, pois os outros pesquisadores tiveram que partir para preparar a saída das lanchas.
Alunos da escola Ruy Barata, em Mamauru, sentados
na escada do colégio. Foto: Diego Baravelli
As rotas acompanhadas eram no período vespertino, mas foi necessário sair ainda durante a manhã para acompanhar o trajeto dos barqueiros até escolas nas comunidades de Mamauru e Castanhanduba, na área de Igarapé Grande, a leste da sede de Óbidos. Importante observar que Castanhanduba é uma vila comunitária quilombola.
Após passar boa parte do dia no convívio das comunidades, os pesquisadores perceberam uma atitude diferente nas crianças. "Andando com um agente de saúde local, crianças bem pequenas vieram pedir a benção ao homem. Em seguida elas me cercaram fazendo o mesmo, estendendo as mãozinhas para mim", conta a pesquisadora Amanda Odelius. Desconsertada, ela não soube inicialmente como reagir ao costume local, mas logo pegou o jeito.
Na terça-feira, dia 13, quatro dos cinco pesquisadores precisaram madrugar para acompanhar rotas matutinas na comunidade de Silêncio e novamente em Mamauru. Como Castanhanduba, Silêncio também é um quilombola. Enquanto isso, a pesquisadora Ana Paula Antunes e o representante do blog TER Pesquisa foram conhecer Neilson Farias Ferreira, único aluno cadeirante do município.

Obstáculos para estudar
Aos 17 anos, Neilson acabou de cursar a 4ª série. Como sua casa fica na várzea do município, onde o calendário é adaptado à cheia do rio, ele começará a 5ª série ainda este ano, mas no segundo semestre. "Só comecei a estudar aos 12 anos, o que está fora do padrão estabelecido pelo MEC. O certo seria ter começado aos 6", afirma. Segundo o adolescente, o governo municipal atual deu mais condições para que ele conseguisse acompanhar os estudos.
Durante o período de aulas, o pai e o barqueiro precisam ajudá-lo a entrar e sair do barco, já que não há uma entrada adaptada. "E na escola os colegas também sempre me ajudaram bastante", lembra o aluno. A equipe da pesquisa levou o garoto para conhecer e dar um passeio na lancha usada como protótipo nas comunidades. "Como o barco, ela também não possui adaptação para cadeirantes, e isso deve ser levado em conta pela pesquisa", diz Marcelo Bousada, líder dos pesquisadores.
Na casa da avó, Neilson não faz questão de usar a cadeira-de-rodas.
O pai o ajuda no caminho até a beira do rio. Foto: Fábio Tito
O que Neilson gosta mais de fazer é ler. "Gosto do Menino Maluquinho, almanaques do Chico Bento... Também leio muito a Bíblia e livros de cantos (religiosos)", diz. Bem articulado e com excelente memória, ele comenta sobre política citando nome e sobrenome de ministros, senadores, deputados e políticos locais. Mas garante que não tem interesse em cargos públicos. "Quero ser advogado. Acho que muitas pessoas são prejudicadas porque não conhecem seus direitos", afirma o jovem.
Por Fábio Tito, de Óbidos

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pesquisa chega a Óbidos, cidade mais portuguesa da linha do Equador

O retorno à sede do município de Santarém (PA) foi feito na noite de quinta para sexta-feira, dia 8 de abril. De lá viajaram para Brasília José Maria Rodrigues, coordenador geral de apoio à manutenção escolar do FNDE, e Renata Maia-Pinto, líder da frente de pesquisa do barco.
Os pesquisadores passaram o dia inserindo no sistema os dados coletados em pesquisa durante a semana. No sábado, às 10h da manhã, o barco Natureza saiu de Santarém em direção ao município de Óbidos, também no Pará. Após subir o rio Tapajós e entrar pelo Sururu, a embarcação chegou ao rio Amazonas. Seguindo contra o fluxo do Amazonas, o Natureza atracou no porto da cidade de Óbidos, sede do município.
O porto de Óbidos, em frente à garganta do Amazonas. Foto: Fábio Tito
Apontada como a cidade mais portuguesa da linha do Equador, Óbidos possui diversos edifícios tombados como patrimônio histórico. As construções no local começaram a ser feitas em 1697, fundando a base de um forte que garantiria o domínio português no rio Amazonas. O ponto é estratégico, pois fica à beira de uma garganta que é passagem obrigatória de quem sobe ou desce o rio.
A área de várzea do município é extensa e possui diversas escolas. Logo que chegou, a equipe de pesquisadores foi surpreendida por uma notícia inesperada. "As escolas de várzea entram de férias na época da cheia do rio. As aulas acabaram no final de março", avisa Irami Canto Tavares Filho, coordenador de transporte escolar do município. Segundo ele, as 31 escolas que ficam na várzea seguem um calendário diferente, que vai de julho ou agosto de um ano até março do ano seguinte - o período de seca. "Durante a cheia, muitas escolas na região ficam alagadas e é impossível ter aula", justifica.
No domingo (11), o coordenador guiou os pesquisadores de lancha até Igarapé Grande, que fica na região de terra firme mas possui grandes lagos entre as comunidades. Lá as escolas seguem o calendário regular, e alguns estudantes precisam ir de barco até a aula. A equipe visitou alguns barqueiros que fazem o trajeto desses alunos e programou as rotas a serem acompanhadas no início da semana.
O secretário municipal de Educação e o
coordenador de transporte escolar conversam com
o pesquisador Marcelou Bousada. Foto: Fábio Tito
Na volta, os pesquisadores entrevistaram o secretário municipal de Educação, Edson de Pádua. Ele também falou sobre a complexidade dos calendários escolares no município, e ressaltou a longa jornada que os estudantes às vezes precisam enfrentar por causa do transporte. "Há crianças que saem de casa às 9h para assistirem aula à tarde, e só chegam de volta em casa às 21h. Isso faz que o tempo de convívio com a família seja muito pequeno", afirma. Em sua opinião, uma alternativa de transporte mais rápido ajudaria muito a evitar situações como essa.
Por Fábio Tito, de Óbidos

O interior de Aveiro e as dificuldades para acompanhar jogos de futebol

A quinta-feira (8), segundo dia de trabalho no município de Aveiro (PA), foi dedicada a acompanhar rotas escolares que levam às vilas de Fordlândia e Urucurituba. Os alunos são habitantes de vilas ribeirinhas à beira do Tapajós, em suas duas margens e em entradas criadas pela cheia do rio.
Fordlândia, cidade construída por americanos na primeira metade do século XX. Durante
a II Guerra Mundial, muitos seringueiros vendiam borracha à fábrica da Ford. Foto: Fábio Tito
De sua casa na comunidade de Campo Alegre, Breno Amorim Azulay precisa cruzar o rio de barco para chegar à escola Sagrado Coração de Jesus, em Fordlândia, onde cursa o 3º ano. Começando o último ano do Ensino Médio nesta semana - o início das aulas estava atrasado -, o rapaz já tem planos para o futuro. "Quero fazer Administração em Santarém, e depois eu e meu primo temos vontade de abrir uma loja de informática por lá mesmo ou em Itaituba", afirma. Breno já fez três cursos na área em Aveiro, aonde costuma ir duas vezes por mês.
Sobre a escola, ele conta da mudança que houve do ano passado para este. "Agora as aulas vão ser em módulos, uma disciplina por vez. Os professores dão aula da mesma matéria por algumas semanas, aplicam todas as provas e seguem para outras comunidades", explica. O problema é que, pelo menos nesta primeira semana, Breno está tendo que esperar na escola antes de ter aula. "Hoje ficamos esperando até as 16h, porque os professores estavam dando aula para as outras séries", diz, já no caminho de volta para casa.

Vaquinha para ver futebol
Não é difícil descobrir o time da paixão de Breno, já que seu caderno é coberto de adesivos com o escudo da equipe. "Sou corintiano fanático, o difícil é que lá onde moro a maioria é flamenguista", afirma em tom de brincadeira. O jovem conta que há 4 meses a prefeitura parou de mandar óleo diesel para o motor gerador de energia da comunidade. Quando tem jogo da Libertadores, juntamos dinheiro para comprar óleo e assistir. Mas tenho que ver o jogo do Flamengo mesmo, que quase sempre é o que transmitem. Fico sabendo do Corinthians só no intervalo", diz, insatisfeito.
Breno fez questão de se vestir o uniforme para a foto.
Ao fundo, o rio por onde ele vai à escola. Foto: Fábio Tito
São necessários 3 litros de diesel para ver a partida inteira, e o litro é vendido a R$ 2,50. "Fico bravo quando espero para ver os gols do Corinthians no intervalo e eles não mostram, dá vontade até de desligar o motor", brinca. Seu sonho é ver um Corinthians e Flamengo da arquibancada do estádio, e de preferência com o Timão ganhando. "A maioria dos meus primos é flamenguista, eu iria tirar muita onda com a cara deles", diz.

Vida de trabalho

Nascido em Cajazeiras, interior da Paraíba, José Avelino da Silva está com 86 anos e é o bisavô do corintiano Breno. O senhor mora em Campo Alegre desde os cinco anos de idade, quando seu pai se mudou com a família para a Amazônia. "Naquela época, quando o povo queria viajar pra Amazônia, ia primeiro consultar o Padre Cícero. Papai foi lá e teve a benção", conta.
A família veio atrás das promessas da borracha, que pagava muito bem aos seringueiros. Mas José lembra que sua experiência profissional começou ainda antes, na Paraíba. "O primeiro serviço que fiz foi aos cinco anos, colhendo algodão com meu pai. É o serviço mais fácil que tem na agricultura, porque não tem o trabalho de preparar o produto depois que colhe", afirma.
Seu José mora na Amazônia há 81 anos. Ele perdeu um dedo
do pé devido a uma picada de cobra. Foto: Fábio Tito
Como seringueiro, os momentos mais traumáticos foram com cobras venenosas. "Quase morri três vezes, já fui picado por salamanta, surucucu e jararaca. Naquele tempo não tinha bota, a gente trabalhava descalço mesmo", explica. Foi numa dessas que ele perdeu o dedinho do pé, que ficou necrosado após a picada. Mas saúde ainda há de sobra. "Ele ajuda nas tarefas, até hoje corta toco pra fazer lenha. Só não faz mais coisa porque meus avós não deixam", revela o bisneto.
Por Fábio Tito, de Aveiro

Pesquisa do Transporte Escolar Rural chega a Aveiro, no Pará

Após cruzar os limites do município de Santarém, o barco de pesquisadores do transporte escolar chegou ao município de Aveiro, ainda no estado do Pará. A equipe atracou em Tavio, vila que fica à margem do rio Tapajós, e novamente se dividiu em duas para acompanhar diferentes rotas escolares dentro do município, até colégios que ficam nas comunidades de Açaituba e Tavio.
O barco Natureza, atracado à margem
da comunidade de Tavio. Foto: Fábio Tito
Na cidade de Aveiro, sede do município, membros da equipe estiveram com Gilmar Lira Lopes, secretário municipal de Educação. Ela falou sobre a situação das escolas e mostrou dados sobre alunos do município. "Mais de 550 estudantes usam o transporte escolar todos os dias. E em torno de 80% das rotas são feitas em embarcações", afirma.
Os pesquisadores Marcelo Bousada, Ana Paula Martins e Diego Baravelli acompanharam a curta rota matutina que leva alunos do Lago do Tavio até Tavio. O trajeto, que de barco demora 1 hora e 20 minutos, levou apenas 20 minutos com a lancha usada de protótipo na pesquisa.
Em Açaituba, que fica à beira do rio Cupari, os pesquisadores André di Monaco e Amanda Obélius acompanharam a longa rota do barqueiro que sai às 10h da manhã para apanhar 17 alunos do turno vespertino, habitantes de comunidades que ficam ao longo do mesmo rio. O barco chega de volta a Açaituba pouco antes da aula começar, às 12h40.

Brincadeiras
A comunidade tem muitas crianças, que a princípio apenas observam de longe, tímidas. Mas após qualquer sinal de amizade elas já cercam os visitantes, mostrando as brincadeiras e posando para fotos. Cada clique era seguido de um coro de "Cadê? Cadê?", dos meninos querendo se ver no visor da câmera. Para brincar de pular corda e futebol, eles vão até a escola pedir corda e bola emprestados. No pique-bandeirinha, eles escolhem dois galhos do mato e os colocam em pontos distantes da área aberta entre o rio e a vila. Alguns meninos menores abrem mão dos jogos e preferem brincar na lama, formada pela chuva de mais cedo.
Crianças de Açaituba se divertem com jogos e brincadeiras. Foto: Fábio Tito
Volta aos estudos
Ainda pela manhã, o pesquisador Diego Baravelli chamou a atenção para algo que ouviu na escola de Tavio. "Nos contaram que algumas meninas têm deixado de estudar bem cedo, aos 12 ou 13 anos, porque decidem se casar", relata. Foi mais ou menos o que aconteceu 17 anos atrás com Maria Katicilene Matias Pereira, moradora de Godinho, comunidade à beira do rio Cupari. "Quando engravidei e tive meu primeiro filho, ficou muito difícil de ir à escola e acabei largando os estudos", lembra.
Katicilene e os três filhos que ainda moram com ela. A pequena
venda fica na sala de entrada da casa. Foto: Fábio Tito
Hoje aos 32 anos e com quatro filhos, Katicilene é merendeira da escola de Ensino Básico de sua comunidade e está estudando novamente. "Três anos atrás, acabei a 3ª e a 4ª séries na EJA (Educação para Jovens e Adultos), e este ano comecei a 5ª série na escola em Açaituba", afirma. Ela vai ao colégio de barco com dois de seus filhos e frequenta a mesma turma da filha mais nova. Mesmo estando agora mais próxima, a mãe estudante considera que acompanhava melhor os estudos dos filhos antes, quando apenas trabalhava. "Eu tinha mais tempo para isso. Agora não consigo nem eu mesma estudar direito", diz, rindo.
O motivo para voltar a estudar é simples. "Pelo conhecimento, que é muito importante", resume. Além de trabalhar como merendeira, Katicilene tem uma pequena venda em casa, a qual abastece com alimentos o vilarejo onde a família mora. "No futuro a gente pensa em mudar, talvez no ano que vem. Gostaria de abrir uma loja em Santarém. Não quero ser empregada, quero ser empregadora", planeja.

Pais e alunos de Tavio, no município de Aveiro, se reuniram para
saber sobre a pesquisa de Transporte Escolar Rural. Foto: Fábio Tito
Apresentação
Ao fim do dia, a equipe apresentou o DVD da pesquisa sobre ônibus rural para a comunidade de Tavio. Os ribeirinhos se reuniram em uma sala da escola, onde a apresentação foi projetada. Marcos Fleming, responsável por todas as frentes da pesquisa sobre transporte escolar, mostrou o balanço como modelo do que se pretende fazer com os dados adquiridos no acompanhamento de rotas escolares hidroviárias. O coordenador geral de apoio à manutenção escolar do FNDE, José Maria Rodrigues, também acompanhou a apresentação.
Por Fábio Tito, de Aveiro

Comunidades de Santarém recebem os pesquisadores

Seguindo contra o fluxo do  rio Tapajós no município de Santarém (PA), a equipe de pesquisadores do CEFTRU atracou na madrugada desta terça-feira, dia 6, em uma prainha próxima à vila de Boim. Foram acompanhadas as rotas de barco que levam às escolas São Raimundo Nonato e Santo Inácio Loyola, respectivamente nas comunidades de Nova Vista e Boim.
Um fato importante observado em Santarém é que as escolas deste município estão servindo merenda, prática que não era comum em locais visitados anteriormente. As instalações em geral são boas, a escola Santo Inácio Loyola, por exemplo, possui biblioteca e sala de informática. Por outro lado, as aulas no Ensino Médio lá mesmo em Boim ainda não haviam começado. Estavam marcadas para iniciar na quarta-feira, dia 7 de abril.
Ao chegar em Nova Vista, as crianças precisam pisar
na água para descer do barco. Foto: Fábio Tito
Em Nova Vista, a secretária Marilene Rodrigues Xavier, de 26 anos, falou ao blog TER Pesquisa. Ela sempre viveu em uma comunidade próxima chamada Nuquini, que hoje abriga 45 famílias, mas lembra que as dificuldades para estudar eram maiores no passado. "Eu acordava às 4h da manhã e levava 2 horas de bicicleta para chegar à escola. Tenho um irmão mais novo que, de barco, faz a mesma distância em 30 minutos".
Marilene considera que o caminho árduo no passado fazia com que os alunos levassem mais a sério os estudos. "Hoje, com as facilidades, tem menino que chega até a escola e prefere matar aula. Acho que falta acompanhamento dos pais, que deveriam demonstrar interesse no aprendizado dos filhos indo às reuniões no colégio, cobrando leitura, taboada...", afirma.

Lendas e folclore
Esberty Xavier da Rocha, mais conhecido em Nova Vista por Seu Bebé, não aparenta os 79 anos que carrega. Ele é o pai de Deusa, merendeira da escola São Raimundo Nonato, e foi ela que avisou que o pai é bom de conversa. Seu Bebé e a mulher, dona Diva, 77, recebem as visitas de forma humilde e atenciosa sentados à mesa de madeira ao lado da cozinha, e não demoram a engatar nas histórias. "Estamos com 54 anos e seis meses de casados", afirma o senhor. "Está certinho!", a esposa confirma.
Perguntado sobre as lendas e histórias do passado, Esberty recorda de trabalhar no mato como seringueiro e ouvir barulhos estranhos ao redor. "Era grito, assovio, cantoria de galo no meio do dia, batidas no chão. E também tinha gente que falava na Curupira, que endoidecia os homens com o canto dos passarinhos e fazia com que eles perdessem o rumo", conta. "Mas é só não mexer com esses bichos que eles não te perseguem."
Seu Bebé lembra de diversas histórias antigas dos quase oitenta anos vivendo no interior. Foto: Fábio Tito
A história contada com mais convicção pelo casal é a de duas cobras irmãs que viviam pela região. "Uma mulher pariu as cobras lá na comunidade de Apaci, que também fica na beira do (rio) Tapajós. Uma se chamava Noratinho, a outra, Maria", diz Esberty. "A mãe os criou numa cumbuca e até os amamentava", completa a mulher. Segundo eles contam, Noratinho fazia o bem e Maria fazia o mal. Quando eles cresceram e não couberam mais na cumbuca, a mulher os soltou no mato.
"Eles viviam brigando muito pelas matas, o pessoal de vez em quando ouvia as brigas. Até que uma vez, depois de três dias de luta, Noratinho matou Maria", relata dona Diva, sem sombra de dúvidas. "De vez em quando o Noratinho baixa nos cordões dos curadores da região", afirma seu Bebé. Os 'curadores' são curandeiros, que usam magia para sarar o povo de doenças e para outros fins. No passado, essas figuras eram mais comuns nas comunidades do interior da Amazônia.
Por Fábio Tito em Santarém

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Coordenador do FNDE acompanha visita a escola em Anumã, à beira do Tapajós

Divididas as equipes para as rotas da tarde de segunda-feira (5), os pesquisadores Diego Baravelli, Amanda Odelius e a líder Renata Maia-Pinto fizeram o estudo da rota que leva alunos da comunidade de Santi até a escola Santa Rita de Cássia, na comunidade de Anumã. O coordenador geral de apoio à manutenção escolar do FNDE, José Maria Rodrigues, acompanhou a visita ao colégio.
José Maria Rodrigues, representante do FNDE, conversa com crianças e alunos ao lado de Renata Maia Pinto, líder do projeto. Foto: Fábio Tito
Segundo Grasiani Gilberto de Souza Pereira, auxiliar responsável pela escola, 80 estudantes assistem às aulas diariamente, dos quais 17 utilizam um barco para chegar até lá. "São alunos que moram em comunidades do outro lado do rio e vão a pé ou de bicicleta até o ponto em que o barqueiro os apanha", explica Pereira. O barqueiro foi contratado pelo município de Santarém há dois anos. Antes disso, alguns pais faziam a travessia dos estudantes.
O responsável pela escola também falou sobre crianças e adolescentes na região que deveriam estar na escola mas não se matriculam. "Muitos casos são por falta de interesse deles mesmos, outros são pela condição financeira da família", afirma. De acordo com ele, os alunos só recebem do governo a camisa do uniforme, e as famílias maiores têm gastos significativos para manterem todos os filhos na escola.
Antes da aula, algo inédito na pesquisa: à frente das bandeiras do Brasil, Pará e Santarém, as crianças foram alinhadas para cantarem o Hino Nacional, acompanhando a canção tocada no aparelho de som.
As bandeiras são erguidas durante o Hino Nacional na escola Santa Rita de Cássia, em Anumã. Foto: Fábio Tito
Além do auxiliar responsável, os pesquisadores também entrevistaram duas alunas que fazem a rota pelo rio todos os dias, além do barqueiro e do pai de uma das crianças que utilizam o barco. De presente, ganharam duas melancias produzidas no quintal da casa do barqueiro.

Crianças curiosas observam
a lancha do projeto. Foto: Fábio Tito
Alunos sem transporte
A outra equipe, formada por Marcelo Bousada, André di Monaco e Ana Paula Martins, foi às escolas das comunidades de Vila Amorim e Cabeceira do Anselmo. Elas fazem parte do pólo José de Melo Silva, que possui em suas unidades um total de 500 alunos. Os pesquisadores verificaram que nenhuma das rotas nesse pólo possui transporte de barco oferecido pela prefeitura. "Os alunos têm que dar um jeito para chegar até a escola. Uma professora nos contou que há crianças que chegam a remar por mais de uma hora para irem às aulas", afirma o antropólogo Marcelo Bousada, pesquisador do projeto.
Devido ao deslocamento entre Anumã e Vila Amorim, a equipe não chegou a tempo para acompanhar as rotas do período matutino. À tarde, os alunos que utilizam o rio para ir ao colégio não tiveram aula, por isso a equipe não conseguiu acompanhar nenhuma rota neste dia.
Por Fábio Tito, de Santarém

Coordenador do FNDE integra equipe do Barco Natureza

O Coordenador Geral de apoio à manutenção escolar do FNDE, José Maria Rodrigues,está no barco Natureza e passará quatro dias acompanhando a rotina dos pesquisadores no interior do município de Santarém (PA). Houve também a troca de membros no barco. Ana Paula Antunes Martins chegou na sexta-feira (2) para substituir Henrique Coelho na função de apoio e ajudar os pesquisadores na coleta de dados.
Em reunião com a secretária municipal de Educação de Santarém, Lucineide Gonçalves Pinheiro, a equipe planejou ainda no domingo as rotas escolares a serem traçadas ao longo da semana. Em seguida, em comemoração à páscoa, eles receberam caixas de chocolate, encomenda enviada pela equipe do CEFTRU em Brasília.Depois de sair de Santarém à meia-noite, o barco Natureza viajou durante a madrugada de segunda-feira e chegou à vila de Anumã às 7h30 da manhã.
O coordenador Marcos Fleming, a líder Renata Maia-Pinto e o representante do FNDE José Maria Rodrigues recebem mães de alunos da comunidade de Anumã no barco Natureza. Foto: Fábio Tito
No caminho das rotas escolares -  Ficou decidido que a equipe se dividiria em duas para traçar rotas vespertinas de alunos que saem de vilarejos próximos para assistirem as aulas em Anumã.
À beira do rio Tapajós, Anumã abriga três igrejas, escola e diversas casas espalhadas ao redor. Erlinton Gomes Correia, de nove anos, é uma das crianças que frequenta a Escola Santa Rita de Cássia, que fica no centro da vila. "Vêm meninos de Santi, Carão e Americano (vilas próximas) para estudar aqui, a maioria de barco", afirma o garoto. Quando era menor, ele morava em Santarém, mas diz preferir a vida no interior. "É mais tranquilo, menos perigoso", considera.
Erlinton, à esquerda, com os amigos Jackson e Joelson, todos estudantes da escola em Anumã / Foto: Fábio Tito
Quando não está na escola, Erlinton ajuda os pais. "De manhã vamos até Carão vender tapetes e cortinas que minha mãe faz. E quando saio da aula no final da tarde vou pescar com meu pai e um de meus irmãos", conta. Sábado e domingo a pesca também é necessária. Erlinton tem oito irmãos. Os dois mais velhos, de 15 e 22 anos, vivem em Santarém estudando e trabalhando. Para ajudar na alimentação, a família planta mandioca, arroz e milho. "Mas quando não nasce a gente precisa comprar na feira pra ter o que comer", lembra o menino.
Por Fábio Tito, de Santarém

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Custo aluno, gestão e transporte escolar aquaviário: as equipes estão no campo


Em Castro, no Paraná, o eng Willer Carvalho explica a pesqu
Equipes de pesquisadores  do estudo sobre o Transporte Escolar Rural –TER – uma parceria do CEFTRU com o FNDE, estão a campo em diferentes partes do País em busca de dados e também testando a metodologia com ênfase nos principais focos dessa nova sondagem. O trabalho que se desenvolve desde 2005 está agora na fase de coleta de informações para a vertente custo-aluno, gestão do transporte escolar rural e ainda transporte aquaviário na região amazônica. A equipe da gestão já se encontra em campo, e passará por 11 municípios, a equipe do barco Natureza  já percorreu sete dos 17 municípios da Amazônia e o grupo da sondagem sobre o custo-aluno 
está em campo, atualmente no município de Santarém devendo visitar no total 10 municípios.

 Gestão- Na tentativa de conhecer  no local a gestão do transporte escolar rural  a equipe do grupo de gestão  realizou entre os dias 24 e 26 de março o trabalho de campo no Paraná, no município de Castro, para conhecer o sistema de gestão e rastreamento de veículos de transporte adotados na cidade. Ali o gerente do projeto no Ceftru, o engenheiro Willer Carvalho, e toda a equipe de pesquisadores, fizeram reuniões com o secretário municipal de educação, Carlos Eduardo Sanches, e se familiarizaram  com o atendimento, a prestação de serviço público de transporte escolar rural oferecido pelo município. O sistema de gestão do município é considerado singular e, segundo Willer Carvalho, tem uma boa evolução que pode servir de modelo para outros municípios. Daí o interesse dos pesquisadores em conhecer de perto aquela realidade.
A equipe de gestão começou a coletar informações em 11 municípios que abrangem as 5 regiões brasileiras e que utilizam o transporte escolar rural. A pesquisa piloto em Unaí – MG, entre os dias 10 e 11 março, continuou em Corumbá – MS entre 15 e 16 de março. Dos 9 municípios restantes, 2 foram visitados nos dias 22 e 26 de março. A partir do dia 5 abril até o dia 16 os municípios de Mangaratiba – RJ, Nova Venécia – ES, Patos – PB, Jataí – GO, Rio Verde – GO, Costa Rica – MT e Marabá – PA serão pesquisados por duas equipes. 

Em Breves (PA) crianças chegam na escola Foto -Diego Baravelli 
O barco Natureza  e o transporte aquaviário - Falta de  embarcações adequadas, longas distâncias que exigem  dos alunos caminhadas de até trinta minutos para chegar a um trapiche e  pegar um barco  que vai percorrer ainda distâncias de duas a três horas pelas águas, com muitas paradas, porque há sempre mais alunos do que barcos. Esses  são alguns  dos inúmeros  problemas que os estudantes da Amazônia enfrentam para chegar à escola.   A equipe da Pesquisa do Transporte Escolar Aquaviário esteve até agora em 7 municípios do Pará, dos 17 selecionados para receber a equipe da UnB que trabalha em parceria com o FNDE.  Na região paraense onde as enormes distâncias são percorridas só de barco há escolas onde todos os alunos e professores  dependem de uma embarcação e muitas horas de viagem para ter acesso às salas de aula.A Pesquisa do Transporte Escolar rural busca traçar um primeiro esboço dos problemas que os ribeirinhos encontram para chegar à escola e também indicar soluções. A equipe de pesquisadores começou o trabalho de campo no dia 08 de março saindo de Belém. Até agora foram percorridos os municípios de  Santa Cruz do Arari, Abaetetuba, Breves, Gurupa, Almeirim e Santarém. O barco se encontro esta semana em Aveiros no Pará. O barco retorna a Santarém no sábado dia 10 de abril.

Custo do transporte escolar rural - Um dos maiores pesos no orçamento dos municípios está nos gastos com o transporte escolar rural. Entender essa realidade no modo aquaviário é um dos desafios da equipe que percorre diferentes regiões do país coletando informações para subsidiar o estudo sobre o custo desse transporte. Todas as 3 equipes dessa frente econtram-se, nessa semana, em Santarém - PA, e depois cada uma se desloca para diferentes regiões a fim de entender realidades distintas do transporte escolar rural no modo aqueviário no Brasil.